16 de dez de 2010

Tiririca, a educação nacional e o analfabeto funcional


Infelizmente, cerca de 50% das crianças do 5º ano do ensino fundamental não passariam no teste do Tiririca.
Por João Batista Oliveira

14/12/2010


O Ministério da Educação (MEC) e o Tribunal Eleitoral têm muito a aprender um com o outro. O segundo pode ensinar ao primeiro o que significa alfabetizar. Já o MEC deve mostrar ao tribunal o que é compreender um texto. Essa troca de informações, sem dúvida, contribuirá para melhorar a educação e o nível dos nossos políticos. Na agenda pós-eleitoral, uma nova avaliação: a prova do Tiririca.

Conforme noticiou a imprensa, foi determinada a realização de uma prova de leitura e ditado ao recém-eleito vencedor das urnas. Nada mais acertado. Qualquer cidadão sabe que essa é a prova de fogo da alfabetização: escreveu, não leu, o pau comeu! Ler e escrever se avaliam com instrumentos tão simples quanto um ditado e leitura de um texto corriqueiro. Qualquer pessoa alfabetizada é capaz de montar, aplicar e corrigir uma prova dessas.

A educação no Brasil teria enormes chances de melhorar se o MEC e as secretarias de Educação fizessem, com a mesma presteza, essa checagem no fim do 1º ano do ensino fundamental. Pena que a imposição ao Tiririca não se estenda às instituições que elaboram testes de alfabetização e às faculdades que formam nossos professores, e que, há décadas, deixaram de formar professores alfabetizadores. A alfabetização das crianças é o primeiro gargalo da educação no país. É o primeiro passo a ser conquistado em qualquer nação que pratica educação de qualidade.

Infelizmente, cerca de 50% das crianças do 5º ano do ensino fundamental não passariam no teste do Tiririca. O mais grave: nunca foram submetidas, de fato, a uma prova como essa agora proposta. No lugar dos mirabolantes testes de alfabetização que andam por aí, se isso tivesse ocorrido, viveríamos em outro país. Pesquisas do Instituto Montenegro mostram que apenas 30% dos adultos de qualquer nível de escolaridade conseguem compreender o que está escrito nos textos do cotidiano.

Alfabetizar é isso: ser capaz de ler e escrever qualquer palavra da língua. A pessoa deve ser capaz de grafar as palavras, de forma legível e respeitando as regras da representação fonética e ortográfica. Se o aplicador do teste ditar “é ladrão de mulher”, Tiririca não poderá escrever “muié”, sob o risco de perder o seu registro. Se ditar “ficha limpa”, não vale escrever “fixa limpa”. Na leitura, é preciso que o ouvinte entenda o que foi lido — e isso exige um mínimo de fluência, e não apenas a capacidade de ler silabando ou ler palavras: Ho-je/é/di-a/de/cir-co!

Se houvesse um padrão mínimo na educação nacional, seria exigido — e bastaria isso — dos candidatos um diploma de determinado nível de ensino, da mesma forma que qualquer empregador sabe o que significa um diploma do Senai, quando recruta um trabalhador na indústria. Hoje, o documento de conclusão de ensino fundamental ou mesmo de ensino médio não garante que o portador saiba ler e escrever. Muito menos se compreende o que lê.

Compreensão na leitura é o mínimo que se pode esperar de um legislador, ainda que seja um legislador oriundo do povo. Ninguém ignora que adultos analfabetos são capazes de compreender muita coisa. Mas na sociedade do conhecimento é preciso ir muito mais além. Aprender sozinho, lendo, refletindo e se expressando por escrito, é requisito mínimo do século passado e já estamos na segunda década do século XXI.

As orientações do MEC nas últimas décadas têm insistido na questão da compreensão, mas suas recomendações ignoram dois componentes básicos para que ocorra. Primeiro, que o aluno seja alfabetizado, que saiba ler e escrever. Segundo, que entenda a estrutura de sua língua, que saiba usar a gramática, que não tenha dúvidas a respeito da diferença entre os que “foram” e os que “forem” alfabetizados ou condenados pela Justiça. Só esses terão uma ficha limpa da educação. Tiririca, obrigado pela lição que seu julgamento oferece ao Brasil!

Fonte: Instituto Millenium




12 de dez de 2010

A infoguerra já tem seu primeiro wiki-mártir?


A infoguerra já tem seu primeiro wiki-mártir?


Julian Assange, fundador do WikiLeaks, virou provavelmente o primeiro homem caçado pela Interpol por não ter usado camisinha

10/12/2010

Há uma semana, na sexta-feira dia 3 de dezembro, a organização WikiLeaks sofria o mais duro golpe desde que começara a publicar em seu site os segredos – uns inconfessáveis, outros não tão secretos assim – da diplomacia norte-americana.

Naquele dia, o WikiLeaks, o site, chegou a ficar seis horas fora do ar por ação de hackers que, das duas, uma: ou gostam muito de guardar os segredos alheios ou foram recrutados pelos EUA a peso de ouro. A ação, ou melhor, a ciber-reação contra o WikiLeaks foi tão pesada que o site teve que mudar de endereço para voltar a estar disponível na web com todas as suas… altas indiscrições, por assim dizer.

No calor daquela queda de braço à distância, sem músculos, punhos cerrados ou olho no olho, mais precisamente às 7:32h daquele 3 de dezembro, um velho guru da internet (se é que os gurus da internet podem ser tão velhos assim) cantou a pedra sobre o que estava acontecendo no mundo exatamente naquele momento.

John Perry Barlow escreveu a seguinte mensagem em sua página no Twitter: “A primeira infoguerra pra valer já começou. O campo de batalha é o WikiLeaks. Vocês são os soldados”.

E ele tinha razão. Nos dias subsequentes à já célebre tuitada de Barlow, o cerco ao WikiLeaks se fechou: o site foi expulso do servidor norte-americano Amazon, as operadoras de cartão de crédito Visa e Mastercard cancelaram as contas de doações online por onde a organização captava recursos para se manter e, por fim, o fundador do WikiLeaks, o australiano Julian Assange, entregou-se à polícia em Londres após a emissão pela Interpol de uma ordem internacional de prisão contra ele referente a uma acusação de “crime sexual”.

Matar o mensageiro

O curioso é que a Mastercard e a Visa continuam intermediando o recebimento de doações à Ku Klux Klan (http://www.inquisitr.com/92447/ku-klux-klan-i-okay-wikileaks-is-bad-says-mastercard-and-visa/), famigerada organização racista norte-americana, o que indica que a rejeição das duas operadoras ao WikiLeaks não é propriamente moral.

Além disso, uma das duas amigas que foram à polícia dar queixa contra Assange por ele ter feito sexo com elas sem preservativo – queixa estranhamente prestada só dez dias depois de o “crime” ter acontecido – publicou em janeiro deste ano no seu blog um post intitulado “Sete passos para uma vingança judicial”, um guia sobre como incriminar alguém usando acusações ligadas ao sexo. A autora do manual de vingança sexual é colaboradora de sites financiados pela Usaid, agência do governo dos EUA ligada ao Departamento de Estado norte-americano.

O fato é que o WikiLeaks, hoje, já tem mais de 200 endereços online diferentes para se esquivar dos ataques que vêm sofrendo, bem como seu fundador até pouco tempo atrás não podia dormir duas noites no mesmo endereço físico. Agora, parece ter fixado residência na cadeia.

Com a infoguerra declarada, um dos coletivos de hackers mais temidos do mundo, o Anonymous, usou a tuitada de John Perry Barlow como epígrafe de um manifesto lançado na última quarta-feira, 8, conclamando todos a aderirem à “Operação Vingar Assange”, nem que seja votando para que o fundador do WikiLeaks seja escolhido o “Homem do Ano” pela revista Times.

Em mensagem publicada no WikiLeaks pouco antes de se entregar, Assange reclama da anuência do seu próprio país à perseguição movida pelas potências contra si. Ele diz que o governo da Austrália “está tentando atirar no mensageiro porque não quer que a verdade seja revelada, incluindo informações sobre as suas próprias negociações diplomáticas e políticas”.

Na mesma carta, Assange diz que os políticos “entoam o coro falso” do Departamento de Estado dos EUA: “Você colocará vidas em risco! Segurança nacional! Você colocará em perigo os nossas soldados!”.

Caro leitor,

Você acha que Assange e o WikiLeaks estão tornando o mundo um lugar menos seguro ou prestando um serviço à sociedade?

Como você classificaria Julian Assange: herói, vilão, anti-herói ou mero anarquista?

Em quem você votaria para “Homem do Ano” da revista Times: Assange, Mark Zuckerberg (o fundador do Facebook) ou os 33 mineiros que ficaram presos na mina de San José, no Chile?

Fonte: Opinião e Notícia