25 de jun de 2011

Entre os escravos chineses: a revolta na fábrica do mundo

25/6/2011

Os proletários chineses começam a reagir contra a exploração da sua mão-de-obra e buscar os direitos mais elementares "das democracias modernas". No mundo globalizado e neo-liberal um socialista está no FMI para "convencer" seus amigos socialistas que devem cobrar da classe operária de seus países o custo das loucuras capitalistas.
(Gerson Vieira)



Há semanas, explodiu na China o protesto dos operários explorados com horários massacrantes e salários de fome. O punho do regime não basta. E Pequim teme uma faísca que poderia queimar o milagre econômico. Essa região produz 11% do PIB nacional e um terço das exportações. Está em curso uma mobilização coletiva pelos direitos reconhecidos pelas democracias. Uma placa quebrada diz: "Servir o Povo". Ninguém a recolheu.

A reportagem é de Giampaolo Visetti, publicada no jornal La Repubblica, 24-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas - Unisinos

Há alguns dias, parecem reprimidas, mas o ícone rompido da propaganda pós-maoísta ainda está aqui, não removido, sobre a rua. É surpreendente que alguém em Zengcheng tenha tido a coragem de derrubar publicamente o verbo sagrado da propaganda. É ainda mais estranho, porém, que a polícia e o exército de Guangdong, inclinados a impedir os tumultos pelas más, tenham esquecido à mostra peças tão constrangedoras.

São o testemunho das duas Chinas que, depois de 30 anos, estão enfrentando o primeiro aviso de desaceleração do crescimento. A primeira é a oficial, que lida com a exaltação vermelha e patrioticamente convocada para celebrar o 90º aniversário da fundação do partido-Estado. A segunda é a social, consumida pela desilusão das promessas do capitalismo comunista e coletivamente mobilizada para conquistar direitos reconhecidos pelas democracias em outros lugares.

Guangdong é o epicentro do confronto e não por acaso que o vento das revoltas de massa tenha se levantado da caixa-forte do milagre chinês. O "motor do Sul" nos últimos cinco anos cresceu a uma média recorde de 12,4%.

Para os próximos cinco anos, ele teve que redimensionar as estimativas para 8%, projetando a sombra de incerteza sobre uma freada nacional para 7%. A região-fábrica, no entanto, produz 11% do PIB chinês e um terço das exportações: por isso, a mensagem de que "Guangdong não está feliz", ardente refutação da campanha "Feliz Guangdong", lançada em janeiro pelo governador Wang Yang, agitar o poder de Pequim.

A crise, no ponto de apoio extremo da resistência econômica global, não estourou na outra semana, quando dezenas de distritos industriais foram postos sob ferro e fogo. Em Shenzhen, a gigante Foxconn, há um ano, está sendo solapada pelos suicídios em série dos operários. As primeiras greves de sucesso estouraram pouco longe dali, nas linhas de montagem deslocalizadas da Honda.

Em Meishan, desde segunda-feira, 4 mil operários de uma fábrica de bolsas, que produz para as marcas mais exclusivas do planeta, estão em greve contra turnos de 12 horas por dia por 100 euros de salário mensal. Por isso, pode parecer estranho que o atento governo central de Pequim, envolvido na transição do poder a partir de 2012, tenha perdido o controle da espinha dorsal da sua legitimação. Uma semana de guerrilha urbana, fidundida em Zhejiang, Hubei e Jiangxi. Na China, não se via isso desde a revolução de Mao.

O alarme disparou, no entanto, da constatação de que não só Guangdong já não é mais feliz. À coluna meridional da indústria, se acrescentou também aquela das matérias-primas, com a grande revolta do Norte, na Mongólia Interna das minas. E se acrescentam Xangai, ao Leste, onde a Bolsa não para de cair há meses e falta energia elétrica para enfrentar o verão, e por fim, a Oeste, também Chongqing, considerada a nova fronteira do desenvolvimento hi-tech. Aqui, segundo a propaganda, as coisas vão de vento em popa. No faroeste sem fiscalização do Império, milhares de pavilhões industriais e de arranha-céus estão desertos, 32 milhões de habitantes vivem intoxicados, e só o punho de ferro de Bo Xilai, o jovem príncipe nascente do partido, contém o excessivo poder mafioso das tríades.

Ao fracasso da "Happy Guangdong", sacudida pelas manifestações operárias escondidas, corresponde assim o triunfo das "Lições de entusiasmo vermelho", exportadas de Chongqing para as novas massas de irrefreáveis migrantes. Entre os dois polos chineses da produção e da propaganda, não está em jogo só o desafio entre Wang Yang e Bo Xilai, que tendem a disputar a hegemonia no próximo Politburo. Ao longo desse percurso, entre as canções da bandeira vermelha e das pedradas dos operários, decide-se o destino da nação candidata a liderar o mundo no século contemporâneo.

Os três mil dirigentes comunistas e os 80 milhões de inscritos no partido aplaudem o filme sobre a fundação do PCC e disputam dois milhões de cópias e 200 títulos sobre o seu próprio sucesso, "presente suntuoso para o aniversário nacional". Os 280 milhões de migrantes internos e os 540 milhões de operários começam, ao contrário, a não aceitar mais a "escravidão de Estado" e a lutar para conquistar "uma vida com menos harmonia e mais dignidade".

Só agora se começa, assim, a se intuir a inquietação de Pequim diante da ameaça de uma Revolução dos Jasmins, posta em cena no final de janeiro. Guangdong, Chongqing, Xangai e a Mongólia Interna, os quatro polos da ascensão chinesa, são sacudidos por crises locais, mas compõem o quadro de uma mesma emergência nacional: a passagem da China de um sistema econômico baseado em exportações a um sistema baseado no consumo interno, e a sua mudança social de um universo agrícola a uma galáxia de megalópoles.

Zengcheng é uma concentração explosiva também desse risco. No ano passado, depois do aumento dos salários médios para 187 euros por mês, 34% das empresas fecharam e, de 818 mil habitantes, os imigrantes romperam a marca de 502 mil. Se o Ocidente tivesse continuado a galope, o prodígio do Oriente poderia se reproduzir. Ao contrário, o mecanismo ficou no mesmo lugar. A oeste diminuíram as ordens e aumentaram as dívidas; a Leste, as fábricas se reduzem, e a inflação explode.

Para que as dificuldades econômicas mudem para o dissenso político e os muitos tumultos mudem para uma revolução, faltam as forças capazes de sintetizar uma oposição. Em todo o país, no entanto, parece ser evidente o nascimento de um bloco social combinado com uma hostilidade ao poder desconhecido há décadas. Operários escravizados, agricultores expropriados, recém-formados desempregados, empresários endividados, migrantes sem direitos, idosos sem bem-estar, dissidentes presos, grupos étnicos colonizados e aspirantes a candidatos independentes perseguidos formam uma inédita massa aideológica decidida a não festejar o próximo aniversário da nomenclatura vermelha.

A China escala posições no exterior, mas se descobre corroída por fraquezas internas subterrâneas: salários inaceitáveis, inflação fora de controle, preços dos alimentos nas alturas, insuficiência energética, desemprego em aumento, explosão da brecha entre ricos e pobres, funcionários corruptos, polícia propensa a abusos, custo insustentável dos imóveis, serviços sociais inexistentes. Os netos de Mao Zedong se veem, assim, como adversários dos filhos de Deng Xiaoping, e uma classe dirigente envelhecida se revela idônea para negar liberdades, mas inadequada para converter o a violência em saúde do crescimento.

O partido se dá conta de que 90 anos, sem reformas estruturais, mais do que a meta de uma longevidade política, é a linha de chegada de um autoritarismo. Dias atrás, enquanto os líderes de Pequim dirigiam apelos enigmáticos para "melhorar a gestão social", um documento do Banco Central do Povo revelou que, na última década, 18 mil funcionários fugiram para o exterior, com 90 bilhões de euros, e que os protestos de massa aumentaram de 9 para 180 mil. O invencível partido se autocelebra por suceder a si mesmo, compra dívidas e ideais estrangeiros, finge libertar Ai Weiwei e deixa na prisão centenas de intelectuais independentes.

A infinita e silenciosa China, ao contrário, foi sacudida como nunca depois de 1949 e de 1989. Em Guangzhou, para localizar os insurgentes, as autoridades tiveram que oferecer aos delatores 500 euros e a autorização de residência. Isso nunca havia acontecido: um pequeno tesouro em troca de um grande culpado. Não é só que Guangdong não esteja nada "happy": é que Pequim, colocando Mao em um retrato, descobre que não está mais no coração dos chineses. E que, em Zengcheng, a placa "Servir o Povo" pode permanecer quebrada na frente dos carros e das lojas queimadas.

5 de jun de 2011

Dia Mundial do Meio Ambiente

No Dia Mundial do Meio Ambiente apresento um texto lúcido do jornalista Marco Aurélio Weissheimer sobre o novo Código do Desmatamento. O tema merece nossa reflexão e atitude.

Código Florestal: a luta entre a razão e a morte

O debate ambiental no Brasil é dominado hoje por supostos porta-vozes do "bom senso", inimigos de posições "radicais". Mas essas pessoas estão propagando a irracionalidade, não a verdade. Isso precisa ser dito assim, em alto e bom tom. São produtores de irracionalidade e de morte.

Marco Aurélio Weissheimer

O debate em torno da proposta de mudança do Código Florestal expôs, mais uma vez, a gigantesca ignorância de lideranças políticas e econômicas da nossa sociedade que se consideram seres racionais e esclarecidos. Essa ignorância, como se viu, espalha-se por boa parte do espectro político com ramificações à direita e à esquerda.

A argumentação utilizada por esses setores começa sempre afirmando, é claro, a importância de proteger o meio ambiente para, logo em seguida colocar um senão: não podemos ser radicais nesta questão, precisamos gerar renda e emprego, desenvolver o país, etc. e tal. É curioso e mesmo paradoxal que essa argumentação apele para um bom senso mítico que seria sempre o resultado de uma média matemática entre dois extremos. Você quer 2, ele quer 10, logo o bom senso nos diz para dar 6. Esse cálculo infantil pode funcionar para muitas coisas, mas certamente não serve para buscar respostas à destruição ambiental do planeta, que não cessa de aumentar.

É curioso também, mas não paradoxal neste caso, que a argumentação utilizada pelos defensores do “desenvolvimento” seja sempre a mesma, com algumas variações. Supostamente recoberta por um bom senso capaz de conciliar desenvolvimento com proteção do meio ambiente (combinação que até hoje tem sido usada para justificar toda sorte de crimes ambientais), essa argumentação, na verdade, é atravessada por falácias e por uma irracionalidade profunda, na medida em que, em última instância, volta-se contra a possibilidade de sobrevivência da razão, entendida como uma faculdade humana.

O guarda-chuva do agronegócio abriga, assim, além de muitas riquezas, armazéns lotados de falácias e irracionalidade. Não é por acaso que alguns de seus representantes cheguem ao ponto de vaiar o anúncio do assassinato de um casal de extrativistas no Pará, como aconteceu terça-feira, no Congresso Nacional. Alguém dirá: são uma minoria, a maioria desse setor é composta por gente de bem. Pode ser que sim. Se até o inferno, como se sabe, é pavimentado por boas intenções, que dirá as galerias e o plenário do nosso parlamento.

Mas voltemos ao suposto bom senso daqueles que só incluem o meio ambiente em suas falas quando é preciso flexibilizar ou eliminar alguma lei de proteção ambiental. Uma das dificuldades que os ambientalistas têm para travar esse tipo de luta é que o outro lado sempre apresenta-se como porta-voz do bom senso. O clichê “não podemos ser radicais” é usado em todas as suas possíveis variações. Os meios de comunicação e seus profissionais funcionam, em sua maioria, como produtores, reprodutores e amplificadores dessa suposta usina de bom senso e racionalidade. Em um cenário muito, mas muito otimista, algum dia poderão ser considerados como criminosos ambientais. Mas ainda estamos muito longe disso.

Em 1962, Rachel Carson lançou “A Primavera Silenciosa” nos Estados Unidos, um livro que acabou forçando a proibição do DDT e despertou a fúria da indústria dos agrotóxicos. Está publicado em português pela editora Gaia. É um livro extraordinário e luminoso que Carson dedicou a Albert Schweitzer. “O ser humano”, escreveu Schweitzer, “perdeu a capacidade de prever e de prevenir. Ele acabará destruindo a Terra”. O deputado Aldo Rebelo talvez considere essa afirmação como uma típica expressão de um representante do imperialismo que já destruiu todo o meio ambiente em seu país e agora quer evitar que “exploremos nossas riquezas naturais”. Ele parece apreciar esse tipo de falácia. Schweitzer também disse: “O ser humano mal reconhece os demônios de sua criação”. Talvez seja esse o problema.

Tudo isso, obviamente, é vã e retrógada filosofia para os porta-vozes do bom senso. Hoje, eles dominam o debate público. Mas estão errados e propagam a mentira, não a verdade. Isso precisa ser dito assim, em alto e bom tom. São produtores de irracionalidade e de morte. E a nossa sociedade vem consumindo avidamente esses produtos. Rachel Carson pergunta-se: “Estamos correndo todo esse risco – para quê? Os historiadores futuros talvez se espantem com o nosso senso de proporção distorcido”. A consciência da natureza da ameaça ainda é muito limitada, escreve ela. E conclui:

“Precisamos urgentemente acabar com essas falsas garantias, com o adoçamento das amargas verdades. A população precisa decidir se deseja continuar no caminho atual, e só poderá fazê-lo quando estiver em plena posse dos fatos. Nas palavras de Jean Rostand: “a obrigação de suportar nos dá o direito de saber”.

É disso que se trata. A sociedade tem o direito de saber e o dever de decidir querer saber. Do outro lado, estão a mentira, a destruição do planeta e a morte. Simples assim. Deixe o bom senso de lado, escolha seu lado e mãos à obra.



Marco Aurélio Weissheimer é editor-chefe da Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)

Fonte: Portal Carta Maior

3 de jun de 2011

Capitu na Casa Civil


Capitolina (Capitu, como é conhecida), é uma personagem do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, publicado em 1899. A República completava dez anos.
Capitu penetrou no imaginário coletivo como tipo feminino, justificando estudos psicológicos e literários. Segundo Maria Lucia Silveira Rangel, Capitu é a personagem "mais discutida, a mais famosa”, e seria repetição falar sobre a grande dúvida em que o escritor deixa o leitor sobre o adultério da esposa de Bentinho.

Capitu, conhecida por seus olhos de ressaca e Bentinho com sua insegurança em relação à ninfa (como a chama no primeiro beijo do casal), nos faz lembrar dos nossos próprios medos e receios. E o fim do livro nos deixa uma dúvida: afinal ela traiu ou não Casmurro?

Creio que o Ministro Palocci é a nossa Capitu. Talvez jamais seja revelado o seu “modus operandi”, mas nem precisa, somos macacos velhos e cansados e sabemos de toda essa maracutaia de assessoria, lavagem de dinheiro, fonte de financiamento e tráfico de influências. Estou curioso para saber quem são as fontes pagadoras. Serão os mesmos doadores da sua campanha para deputado federal?

Para o bem do governo, do PT e da política brasileira, o excelentíssimo ministro deveria renunciar.

Afinal queremos ou não uma Capitu na Casa Civil?

Renuncia Palocci, já!