27 de nov de 2007

A Batalha dos Aflitos


DOIS ANOS DA BATALHA DOS AFLITOS

Uma façanha do imortal tricolor!

Nesta segunda-feira, dia 26/11, o Grêmio comemorou dois anos da inesquecível "Batalha dos Aflitos".
A dramática vitória contra o Náutico em 2005 que trouxe o Grêmio de volta à elite do futebol brasileiro no ano seguinte. Uma das maiores passagens da história do futebol brasileiro que é lembrada até hoje e será lembrada para sempre como sinônimo de superação, entrega e imortalidade. Só quem viveu de perto aquele 26 de novembro de 2005 pode dimensionar a importância da façanha obtida pelo Grêmio principalmente da forma como ela ocorreu.

Não há na história do futebol mundial o registro de uma reviravolta de um quadro negativo tão dramática como foi aquele Náutico e Grêmio. Não há gremista no mundo que não tenha chegado às lágrimas acompanhando o desfecho daquele jogo recheado de dramaticidade com um certo toque de crueldade até. Uma partida que colocou em prova a resistência emocional de uma torcida acostumada com as vitórias heróicas, mas que vinha de um período de amargura e humilhação. Uma partida que, acima de tudo, colocou em prova a fé de uma Nação. Uma Nação que, independente do credo ou religião, procurou na sua fé a força para empurrar o Grêmio de volta ao caminho das vitórias. Naquela tarde estava com meu filho Marcos no Bar do Graxaim, na Vila Ideal, em Canoas, um reduto de gremistas de fé. Quando tudo parecia perdido, Galatto defende o pênalti e logo em seguida o Grêmio faz 1 x 0, era final de jogo, 35 mil torcedores calados, incrédulos. Fomos à loucura! Portanto, comemore torcedor! Este dia está marcado para sempre na história do Grêmio e do futebol, e você também é responsável por isso. Parabéns Nação Tricolor!


26 de nov de 2007

Caminhando para o centro: uma análise da conjuntura interna do Partido dos Trabalhadores no Processo de Eleições Diretas de 2007

Desde 2001, o Partido dos Trabalhadores escolhe seus dirigentes de todos os níveis (nacional, regional, municipal e, onde existe, zonal) através de um mecanismo intitulado “Processo de Eleições Diretas” (PED), previsto no seu novo estatuto de 2001.

O PED trata-se de uma ampla eleição interna, da qual participam todos os filiados, seguindo o princípio democrático-liberal de “cada pessoa, um voto”. Em se tratando de um partido de massas, cujo número de filiados está em torno do primeiro milhão, o PED acaba envolvendo centenas de milhares de pessoas, após uma campanha eleitoral que costuma durar dois meses. No PED de 2005, o segundo da história do partido, aproximadamente 315 mil petistas – devidamente em dia com suas obrigações financeiras junto ao partido - compareceram às urnas. Disputam o PED as diversas frações (SARTORI, 1982) do PT (ou “tendências”, conforme o linguajar petista), que têm direito a inscrever chapa para os quatro níveis, e concorrem em um sistema eleitoral que combina a maioria absoluta (para escolha dos presidentes das instâncias) e a proporcionalidade (para a definição dos membros dos diversos diretórios).

Assim, o PT adota um regime presidencialista onde o presidente do partido governa em conjunto com o seu respectivo diretório e, se sua fração não detiver maioria absoluta no mesmo, terá que formar uma coalizão com outras forças partidárias com participação na instância. Exemplar da aplicação desta esta regra foi o período no qual José Dirceu esteve à frente da presidência nacional do PT. Dirceu era apoiado por um conjunto de frações que tinham a maioria absoluta do diretório nacional, e passaram a atuar em conjunto sob o nome de “Campo Majoritário”. Por outro lado, a incapacidade de formação destas coalizões partidárias - situação já observada em diversos diretórios estaduais e municipais do partido - inviabiliza ou, ao menos, dificulta sua governabilidade. Assim, estes traços de democracia consociativa (LIJPHART, 2003), derivados do seu próprio caráter pluralista[1], aproximam o sistema político do PT da definição de “presidencialismo de coalizão” (ABRANCHES, 1988), originalmente adotada por Sérgio Abranches para tratar do funcionamento do presidencialismo brasileiro em ambiente de democracia.

Os três PEDs realizados pelo PT têm, cada qual, uma marca particular, por terem ocorrido em momentos decisivos na história partidária. O primeiro, de 2001, ao reeleger José Dirceu presidente nacional – pela primeira vez, pela via direta - e formar uma ampla maioria do diretório nacional para o antigo “Campo Majoritário”, foi decisivo para os rumos assumidos na campanha eleitoral de Lula à Presidência da República, em 2002. Com isso, abriu-se caminho para que o PT fizesse inflexões táticas, como a aliança com o PL, e ideológicas, como a “Carta aos Brasileiros”, apresentada por Lula no início da campanha eleitoral, marcando compromisso partidário definitivo com a estabilidade da economia e o respeito aos contratos. Estes dois movimentos foram decisivos para que Lula acumulasse condições para se eleger em 2002.

O segundo PED realizou-se em 2005, no momento em que o PT enfrentava a mais grave crise política da sua história, com as denúncias do “mensalão” envolvendo dirigentes partidários, parlamentares e integrantes do alto escalão do governo Lula. Mesmo que tais denúncias ainda hoje careçam de provas e de julgamento definitivos, seu impacto sob a opinião pública interna e externa ao PT foi enorme. O PED daquele ano foi fundamental para o PT superar esta crise, e não só pelo alto envolvimento da militância, que compareceu em grande número para votar, dando um novo gás ao partido. O resultado das urnas foi outro elemento importante, pois se reconfigurou a correlação de forças no partido, acabando com a hegemonia isolada do “Campo Majoritário”[2] e aumentando o espaço das frações mais à “esquerda” (como a “Articulação de Esquerda – AE” e a “Democracia Socialista – DS”) e ao “centro” (como “Movimento PT – MPT” e “PT de Luta e de Massas – PTLM”) do espectro partidário.

Esta nova configuração de forças obrigou o diretório nacional do PT a funcionar de forma mais consociada, oposta ao anterior hegemonismo. Na prática, isso serviu para democratizar mais as relações internas de poder. Exemplar foi o XIII Encontro Nacional, realizado em 2006 em São Paulo, onde as resoluções aprovadas foram apresentadas em conjunto pelas principais forças partidárias, representantes da “esquerda”, do “centro” e da “direita” petistas[3] – fato, até então, inédito na história do PT.

O PED de 2007 é o primeiro após a reeleição de Lula, em 2006. Superados os efeitos mais devastadores da crise do “mensalão”; recomposto um consenso interno em torno dos temas econômicos tradicionais do PT, mais identificados com o chamado “desenvolvimentismo”[4] e; desfeita a onda faccionista que marcou o primeiro governo Lula, que resultou em diversas baixas partidárias, o PT vive agora o dilema de construir uma candidatura própria a presidente em 2010[5], já que Lula não pode ser mais candidato. A solução deste dilema é fundamental para a institucionalização do PT como partido nacional (HUNTINGTON, 1975; MAINWARING & SCULLY, 1995 e MAINWARING, 2001), capaz de eleger um Presidente da República, mesmo sem dispor da liderança carismática de Lula, que foi o candidato do PT em todas as eleições presidenciais desde 1989[6].

Consideradas estas variáveis, a observação da composição das chapas apresentadas para o diretório nacional do PT neste PED de 2007, atentando-se para as alianças feitas entre diversas frações partidárias e comparando-se com o PED de 2005, constitui-se num bom exercício para se compreender a nova feição do PT após o início do governo Lula. Mas serve também para perceber, empiricamente, a razão instrumental que orienta os jogos de poder desenvolvidos pelos diversos atores políticos internos ao PT. Tais atores agem motivados por razões ideológicas, sem dúvida, mas, principalmente, pela busca de maximização dos seus espaços de poder no partido, considerados os elementos institucionais e conjunturais nos quais se desenrola a disputa. Mais ainda, podemos perceber como o PT funciona como um sistema político próprio, o que é definidor da atuação das suas frações (SARTORI, 1982; PANEBIANCO, 2005).

A primeira constatação: depois do início do governo Lula, diminuiu o espaço da esquerda e da direita partidárias, e aumentou o espaço para uma composição interna de poder mais orientada para o centro.

No PED de 2005, apresentaram chapa as seguintes frações de esquerda: O Trabalho; Articulação de Esquerda – AE (apoiada por outros grupos regionais, como a Esquerda Democrática, do deputado federal gaúcho Henrique Fontana, e pelo prefeito de Recife, João Paulo) e; Democracia Socialista – DS (igualmente apoiada pela fração Tendência Marxista – TM e por grupos regionais, como Construção: democracia e socialismo, do DF, dentre outros). Além dessas, outras chapas se identificavam com a esquerda petista, como a chapa “Movimento Popular” (liderada pelo dirigente da Central de Movimentos Populares, Luiz Gonzaga “Gegê”) e a chapa “Esperança Militante”, do candidato a presidente nacional Plínio de Arruda Sampaio, apoiada por independentes (como o deputado federal carioca Chico Alencar) e pelas frações Ação Popular Socialista – APS e Brasil Socialista - BS, do líder sem-terra Bruno Maranhão, dentre outros. Duas frações de centro apresentaram chapa, o Movimento PT e o PT de Luta e de Massas, além da chapa independente e centrista – apesar de muito próxima ao Campo Majoritário – “O partido que muda o Brasil”, formada quase integralmente por militantes mineiros. Por fim, o então Campo Majoritário, ocupando a posição à direita do espectro partidário, apresentou sua chapa própria “Construindo o novo Brasil”.

Juntas, as chapas de esquerda atingiram 36,8% dos votos válidos (equivalentes a 30 vagas no diretório nacional), somados aos 20,4% (16 vagas) dos centristas e aos 41,9% (34 vagas) do Campo Majoritário. Os restantes 0,9% dos votos válidos foram para uma chapa independente composta apenas por petistas do Ceará, “O Brasil agarra você” (1 vaga). Com tal distribuição de vagas, é inevitável que qualquer postura hegemonista de exercício do poder seja substituída por práticas consociadas, já que nenhuma das frações petistas consegue maioria do diretório sem disposição de negociar com outras forças partidárias. Entretanto, de lá para cá, a correlação de forças mudou no PT.

O primeiro movimento se deu logo após o PED de 2005, quando houve uma debandada de militantes petistas à esquerda, principalmente identificados com a DS e a chapa “Esperança Militante”. A fração Ação Popular Socialista – APS e seus companheiros de chapa Plínio de Arruda Sampaio e Chico Alencar, avaliando que a hegemonia do Campo Majoritário tinha sido mantida, decidiram abandonar o PT, filiando-se rapidamente ao ultra-esquerdista PSOL, para cumprirem o calendário eleitoral[7]. Mas a principal transformação na esquerda petista se deu em princípios de 2007, envolvendo a maior fração de esquerda do PT, a Democracia Socialista, DS.

Após incorporar pequenos grupos regionais[8] que lhe apoiaram no PED de 2005, a DS aproximou-se do centro petista. Junto a alguns militantes independentes, como Paul Singer, o deputado José Eduardo Cardoso, os ministros Tarso Genro e Fernando Haddad, e até a petistas tradicionalmente vinculados ao Campo Majoritário, como o prefeito de Guarulhos Elói Pietá, o senador Eduardo Suplicy e o governador de Sergipe Marcelo Deda, a DS apresentou ao III Congresso do PT a tese “Mensagem ao partido”. A “Mensagem”, ressaltando a necessidade de um resgate da “ética” no PT, tomou para si temáticas ideológicas que, no PT, sempre foram caras ao Campo Majoritário, como o papel da “revolução democrática” e do “republicanismo” para a construção da sociedade socialista. Tais temáticas, mais próximas da cultura política da esquerda democrática ou social-democrata, são certamente estranhas à tradição à qual a DS originalmente se identificava, o trotskismo[9]. É outra a compreensão dos marxistas revolucionários sobre o processo de revolução socialista. Com esse discurso, a “Mensagem” acabou recebendo adesão de importantes intelectuais petistas, como a filósofa Marilena Chauí e a cientista política Maria Victória Benevides.

O afastamento dos militantes mais radicais da DS, a partir de 2003 – como a ex-senadora Heloísa Helena, atual presidente do PSOL, e o economista João Machado - foi fundamental para esta sua aproximação com o centro partidário. Agora, estão à frente da DS, principalmente, petistas gaúchos, como Raul Pont e Miguel Rosseto, e mineiros, como o cientista político Juarez Guimarães, além do eterno dirigente nacional Joaquim Soriano, pessoas que, talvez pela sua experiência de “socialização política” (PUTNAM, 1998) na gestão pública e partidária, tenham sido levados a assumir um perfil mais moderado e pragmático. Logo após o encerramento do III Congresso, a “Mensagem” lançou um documento afirmando sua intenção de “se constituir enquanto movimento permanente dentro do PT”[10]. Esta intenção imediatamente se constituiu numa implicação prática, o lançamento de uma chapa da “Mensagem” ao PED de 2007, junto com a candidatura do deputado paulista José Eduardo Cardozo à presidência nacional do PT.

Se a participação da DS neste processo pode implicar, em se tratando das disputas intra-partidárias, na sua diluição dentro da “Mensagem”, em termos ideológicos, evidencia o caminhar desta fração para o centro partidário. Em entrevista ao blog do jornalista Josias de Souza, Tarso Genro, um dos principais artífices da “Mensagem”, assim respondeu ao ser questionado sobre os objetivos do seu novo grupo: “Nossa idéia é criar um novo espaço de diálogo no PT, que supere a dicotomia que preside as relações internas. Hoje, ou você é considerado uma pessoa da direita ou é da chamada esquerda do partido. Essa visão é equivocada. Não resolve as grandes questões partidárias e políticas que temos que enfrentar.”[11] Há tempos, o objetivo de Tarso Genro para dentro do PT é construir uma grande fração de centro – sob a sua liderança político-intelectual –, que sirva de pólo de atração para petistas de origens diversas do espectro ideológico. Foi movido por este mesmo espírito que Tarso Genro ajudou a fundar o “Movimento PT”, justamente às vésperas do II Congresso partidário, em 1999, fração da qual se afastou depois do governo Lula. O que é novo é a DS, cuja identidade sempre esteve ligada à afirmação do caráter de esquerda e socialista do PT, se incorporar em uma iniciativa de natureza centrista - e esta é a primeira grande novidade do PT em 2007.

Assumindo um discurso à esquerda no PT, assim, restam a Articulação de Esquerda, pequenos grupos, como BS, TM e O Trabalho, além de outros ainda menores e com pouca penetração nacional, como a Esquerda Marxista[12], dissidência de O Trabalho, com base principalmente em São Paulo – seguindo a tradição da ultra-esquerda, o racha se deu entre duas das menores frações do partido. Destas, O Trabalho e a Esquerda Marxista seguramente estão no campo da ultra-esquerda, ligadas a uma vertente mais radicalizada do trotskismo internacional, a QI-CIR (Quarta Internacional – Centro Internacional de Reconstrução), fundada pelo francês Pierre Lambert (SILVA, 2001). Sua proposta é a de resgatar o manifesto de fundação do PT, na defesa de um PT “sem patrões” e de uma plataforma socialista clássica, pautada pela extinção da propriedade privada dos meios de produção. Se a presença dos trotskistas é uma das marcas do PT desde antes da sua fundação, no final dos anos 1970, é certo que sua influência sobre os rumos finais do partido sempre foi limitada. A exceção é a DS, o mais moderado dos grupos trotskistas do PT, que em alguns momentos da história do partido assumiu uma postura dirigente. Agora, que boa parte dos trotskistas saiu do PT para partidos como PSTU, PCO e PSOL, sua participação no partido é mínima, e o poder de influir quase nulo.

A mais importante fração de esquerda do PT, atualmente, é a Articulação de Esquerda. A AE surgiu de um racha minoritário da antiga Articulação (principal corrente moderada do PT nos anos 1980, berço da maioria dos sindicalistas petistas, atualmente se chama “Articulação Unidade na Luta”, e faz parte do CNB), às vésperas das eleições presidenciais de 1994. Àquela época, as lideranças que fundaram a AE opunham-se à aproximação do PT com o PSDB, então um partido de centro-esquerda, ainda distante da aliança com o PFL que elegeu Fernando Henrique Cardoso em 1994. Hoje, a AE assume um discurso e uma forma de organização interna marxista-leninista, apesar de se dizer anti-stalinista. Temáticas como “revolução socialista”, “centralismo democrático”, a defesa de Cuba e os 90 anos da Revolução Russa fazem parte do seu discurso cotidiano.

Há de se considerar, entretanto, que a prática política da AE – sobretudo em estados onde ela tem maioria, como Santa Catarina – é tão pragmática quanto as suas congêneres centristas. Neste estado, no segundo turno das eleições de 2006, a AE não duvidou em referendar o apoio dos petistas à candidatura de Esperidião Amin, do PP, tradicional político de direita brasileiro. Diversamente, a ultra-esquerda do PT se opõe a tais alianças. Ao contrário das correntes mais radicalizadas da esquerda petista, e em semelhança à DS, a AE nunca se esquivou de participar do governo Lula – é da AE o ex-ministro da Pesca, José Fritsch. Sua permanência no PT em 2005, junto com a DS, quando outras importantes frações da esquerda petista abandonavam as hostes partidárias, foi fundamental para que o PT superasse a crise política daquele ano. Com a DS, o CNB e o MPT, a AE construiu a prática consociada que marcou a atual direção nacional e o XIII Encontro Nacional do PT. Talvez uma boa caracterização da posição da AE seja a expressão usada por Panebianco (2005) para definir a postura de boa parte dos partidos comunistas nas democracias ocidentais do século XX: “radicalismo verbal”.

Numericamente, a AE também é importante no PT, e seu candidato a presidente nacional, Valter Pomar, não disputou o 2º turno do PED de 2005 por apenas algumas centenas de votos[13]. No PED de 2007, também apóiam Valter Pomar e participam da sua chapa para o diretório nacional “A esperança é vermelha” as frações BS e TM[14]. Por outro lado, diversas lideranças da esquerda petista que apoiaram Valter Pomar e participaram da chapa da AE em 2005, hoje, estão ao lado de outras forças partidárias – principalmente, da “Mensagem” –, como a Esquerda Democrática, do deputado federal gaúcho Henrique Fontana, e o prefeito de Recife, João Paulo, importante liderança no PT do seu estado.

Um apoio decisivo à candidatura de Valter Pomar em 2005 foi do PTLM, fração do centro petista, de base na Grande São Paulo, liderada por diversos petistas da família Tatto. Juntos, os irmãos paulistanos Enio Tatto (deputado estadual), Arselino Tatto (vereador em São Paulo) e Jilmar Tatto (deputado federal), politicamente ligados à ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy, atual Ministra do Turismo, controlam grande número de filiados no PT na Grande São Paulo e têm peso decisivo no PED. O apoio do PTLM – que lançou chapa ao diretório nacional em 2005 – à candidatura de Pomar no PED passado é mais uma evidência do pragmatismo da AE.

No PED de 2007, o PTLM juntou-se ao MPT e a uma nova fração, surgida em 2006, chamada Novos Rumos – NR, formada principalmente por deputados paulistas, com larga história no partido, e também ligados à ministra Marta Suplicy. Dentre estes, destacamos Rui Falcão, Devanir Ribeiro, Cândido Vaccareza e José Mentor. Estas três frações lançaram uma chapa unificada ao diretório nacional, chamada “Partido é para lutar”, e apresentaram a candidatura de Jilmar Tatto à presidência nacional. Esta é a outra grande novidade do PT em 2007, e representa mais um fortalecimento do centro petista. Pela primeira vez na história do partido, uma chapa autenticamente de centro apresenta um candidato a presidente nacional do PT com condições reais de vitória[15].

Alguns fatores aqui devem ser destacados. Primeiro, a retirada do apoio - dado em 2005 – do PTLM a Valter Pomar[16], enfraquecendo, assim, a principal candidatura da esquerda petista em 2007. O apoio do PTLM a Pomar foi decisivo para o desempenho da sua candidatura no 1º turno de 2005. Além do mais, apesar deste apoio inicial a um candidato da esquerda petista, o PTLM apoiou Ricardo Berzoini no 2º turno, também aí desempenhando um papel fundamental para a sua vitória. É de se lembrar que Berzoini foi eleito no 2º turno com apenas 51,6% dos votos válidos.

Segundo, a criação do NR a partir de um racha do CNB. Apesar das discussões ideológicas, esta ruptura se deu, sobretudo, após a maioria do CNB paulista ter apoiado o senador Aloísio Mercadante, nas prévias em que ele disputou a candidatura do PT ao governo do estado contra Marta Suplicy, em 2006. Assim como no caso do PTLM, é grande a influência do NR junto aos petistas de São Paulo. Ou seja, as candidaturas da esquerda – Valter Pomar – e da direita – Ricardo Berzoini – petistas ao PED de 2007 sofreram baixas importantes com esta aliança de frações centristas em torno da candidatura de Jilmar Tatto.

Por fim, destaco uma curiosidade histórica. As principais lideranças do NR, junto com Arlindo Chinaglia, estiveram à frente do racha da antiga Articulação, em 1993, que deu origem à esquerdista AE. É emblemático para a compreensão da história do PT que todos estes personagens se encontrem, agora, em uma chapa do centro petista.

É claro, assim, o aumento de importância do centro petista na definição dos rumos do partido, após o início do governo Lula. O PED de 2005 e o III Congresso do PT confirmar este crescimento. Curiosamente, a principal implicação ideológica deste crescimento foi que o PT precisou fazer uma inflexão ideológica à esquerda, se comparado com os dois primeiros anos do governo Lula. Naquele período, o Campo Majoritário dirigia, inconteste, os rumos do partido, colhendo ainda os frutos do PED de 2001. Assim, a partir de 2005, mais resoluções do PT – sejam do diretório nacional, ou do XIII Congresso – passaram a criticar a condução da política macro-econômica do governo federal, sob o comando da dupla Antônio Palocci, no Ministério da Fazenda, e Henrique Meirelles, do Banco Central, caracterizando-a como excessivamente ortodoxa. Após março de 2006, com a saída de Antônio Palocci da Fazenda, assumiu o ministério Guido Mantega, que vem reduzindo o grau de ortodoxia econômica do governo, sobretudo pela visível ampliação dos gastos públicos. Na contramão da ortodoxia, o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento – apresentado pelo governo federal no início de 2007, prevê uma progressiva redução anual na produção de superávits fiscais e nas taxas de juros, além de um crescimento do PIB impulsionado pelos investimentos públicos.

No III Congresso do PT, o CNB conquistou uma maioria frágil, precisando igualmente dialogar com as outras frações do partido – principalmente, com as três correntes de centro que apóiam a candidatura de Jilmar Tatto. Neste Congresso, o PT reafirmou sua condição de partido socialista democrático, postura que foi defendida, inclusive, pelos membros do CNB. Se é certo que o “socialismo petista” em nada se aproxima aos cânones da tradição revolucionária marxista, a reafirmação do socialismo é pouco usual nos partidos da esquerda democrática contemporâneos. A inflexão à esquerda vem ocorrendo, assim, justamente no momento em que as frações de ultra-esquerda abandonaram o PT, acusando-o de ter se tornado “centrista”!

Particularmente, não considero que o PT tenha se tornado um partido de centro. Se, nos últimos anos, ele se aproximou do centro, abandonando as posições mais extremadas de esquerda que lhe caracterizaram nos seus primeiros anos, isto não lhe faz um partido de centro. Tal aproximação não levou o PT a se afastar dos ideais igualitários e solitários que caracterizam a esquerda, como diria Bobbio (2001). Mais do que isso, não apenas o PT, como o governo Lula, têm sido marcados – particularmente após a queda de Palocci do Ministério da Fazenda – pela crença no papel positivo do Estado para as políticas de desenvolvimento e de distribuição de renda. No plano internacional, a política do governo Lula prioriza a aproximação dos países “em desenvolvimento”, recusando a lógica leonina do “livre mercado” proposto pelos EUA e pela União Européia ao Brasil e ao Mercosul. Estes não podem ser considerados traços distintivos do neoliberalismo, a principal ideologia da direita contemporânea. No plano da cultura e do comportamento, o PT e o governo Lula são marcados pela sua postura liberal – por exemplo, em temáticas como o aborto, os direitos dos homossexuais e a popularização de novos métodos contraceptivos, como a “pílula do dia seguinte” –, mais uma vez em oposição ao conservadorismo de direita. Se é verdade que segmentos do PT parecem ter se encantado com a agenda neoliberal nos primeiros anos do governo Lula, a reação do partido foi rápida, e o PT, como vimos, reassumiu sua original postura social-desenvolvimentista.

Arriscando-me a usar uma expressão que pode ser ambígua, eu diria que o PT é um partido da “esquerda possível”, realista e pragmática, comprometida com os marcos da democracia-liberal, mas também com a diminuição das desigualdades. Por isso mesmo, afastada da ultra-esquerda, mas igualmente distante da direita. No que não está sozinho, considerando-se a história recente da esquerda. Pelo contrário, o PT compartilha esta posição com a maior parte dos grandes partidos de massas da esquerda democrática contemporânea que, particularmente após a crise da esquerda no final dos anos 1980, mudaram de posição, mas sem mudar de lado.

__________

[1] O PT marca-se pela institucionalização de diversas frações partidárias, dos mais diversos matizes de esquerda. Mas a dimensão regional também pesa na hora de se costurarem os acordos nacionais de divisão do poder interno, o que é compreensível em se tratando de um partido político de um país federalista como o Brasil.

[2] O Campo Majoritário mudou de nome, chamando-se agora “Construindo um Novo Brasil - CNB”, já que não era mais majoritário, mesmo que tenha elegido o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini

[3] Ressalvo que as definições de “esquerda”, “centro” e “direita” do PT não trazem nenhum juízo de valor. Apenas me aproprio da conformação ideológica das frações que é tradicional ao próprio PT. A partir deste momento, estas definições não vão mais vir entre aspas.

[4] As resoluções do XIII Encontro do PT e as teses apresentadas pelas diversas frações ao III Congresso do PT, em 2007, são uníssonas em criticar, com maior ou menor rigor, a condução excessivamente ortodoxa da macro-economia que orientou a primeira fase do primeiro governo Lula, quando Antônio Palocci esteve à frente do Ministério da Fazenda. Assim, estes documentos fazem coro com personalidades de destaque do segundo governo Lula, como Luciano Coutinho do BNDES, Márcio Pochmann do IPEA e o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega.

[5] O lançamento de uma candidatura presidencial petista em 2010, rejeitando-se o apoio a um candidato de outro partido da base aliada do governo Lula, é outro elemento unificador das diversas frações petistas.

[6] Na verdade, este é o último teste que o PT precisa superar para se consolidar como partido nacional. Em se tratando do legislativo, dos governos estaduais e das prefeituras, além do número de diretórios estaduais e municipais, o PT é um dos partidos brasileiros com maior grau de nacionalização, talvez ficando atrás apenas de partidos como PMDB e DEM/PFL que, por serem herdeiros diretos do MDB e da ARENA, respectivamente, encontram-se em situação privilegiada nesta matéria já desde os primeiros momentos da redemocratização.

[7] Quem quisesse disputar as eleições de 2006 precisava estar filiado a um partido político ao menos em 01 de outubro de 2005.

[8] Além do já citado Construção: Democracia e Socialismo, juntaram-se à DS os grupos Alternativa Socialista e Movimento Socialista.

[9] A DS é considerada a “seção brasileira” do Secretariado Unificado da IV Internacional (SU), uma facção mais moderada do movimento trotskista, identificada com o falecido economista belga Ernest Mandel. No final de 2005, a DS aprovou resolução de afastamento do SU, por desabonar o que considerou uma “intromissão indevida” desta organização internacional em uma questão interna sua. Pouco antes, o SU havia aprovado uma resolução que recomendava a DS a se afastar do governo Lula, se juntando aos dissidentes do PSOL.

[10]“O Congresso terminou; a luta continua!”. Capturado do sitio da “Mensagem ao Partido” na internet em 02 de setembro de 2007, no link http://www.mensagemaopartido.org.br/conteudos/exibe/63

[11] Blog de Josias de Souza. “Para Tarso, PT não tem como fugir do debate ético”. 04/02/2007. Disponível no site http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/entrevistas/arch2007-02-04_2007-02-10.html

[12] Há ainda uma série grande de grupos regionais, muito difícil de ser mapeada. Estamos nos pautando pelas principais frações que apresentaram teses ao III Congresso Nacional do PT.

[13] Os dois candidatos a presidente nacional do PT mais votados no PED de 2005 foram Ricardo Berzoini, do CNB, e Raul Pont, da DS, respectivamente. Berzoini se sagrou vencedor no 2º turno, com 51,6% dos votos, contra 48% de Pont.

[14] Agradeço as informações que me foram prestadas, por e-mail de 23 de outubro de 2007, pelo sempre atencioso Valter Pomar.

[15] Entretanto, outras motivações mais pragmáticas do que ideológicas também serviram de impulso para esta aliança. Para além do PT nacional, o que está em jogo também é a disputa do futuro do PT de São Paulo. Mais do que uma aliança de frações nacionais do centro petista, observa-se aqui um acordo entre dois grupos controlados por petistas paulistas ligados a Marta Suplicy (PTLM e NR) e o MPT, que tem entre suas principais lideranças o paulista Arlindo Chinaglia, atual presidente da Câmara dos Deputados. Tanto Marta como Chinaglia são tidos como candidatos naturais às eleições de 2008 e 2010 em São Paulo (capital e estado), e a costura de um eventual acordo pode ser muito interessante para os dois.

[16] Por causa do apoio do PTLM, a candidatura de Valter Pomar foi acusada pelas demais frações da esquerda petista - principalmente a DS e a APS, então no PT - de ser o “plano B” do Campo Majoritário no PED de 2005. O principal motivo para esta acusação era a ligação do PTLM com Marta Suplicy, então integrante do Campo Majoritário.


Bibliografia

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BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda. 2 ed. São Paulo: UNESP, 2001.

HUNTINGTON, Samuel P. A ordem política nas sociedades em mudança. Rio de Janeiro: Forense-Universitária / São Paulo: Editora da USP, 1975.

KECK, Margaret. PT: A Lógica da Diferença. São Paulo, Ática, 1991.

LIJPHART, A. Modelos de democracia. Desempenho e padrões de governo em 36 países. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

MAINWARING, S. & SCULLY, T. Building democratic institutions. Party systems in Latin America. Stanford University Press: Stanford, California, 1995.

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SILVA Antônio Ozaí da. O PT e os marxismos da tradição trotskista. Revista Espaço Acadêmico. Nº 00. Maio de 2001. Acessado em 23 de outubro de 2007

Fonte: Revista Espaço Acadêmico - www.espacoacademico.com.br

O autor:

Rodrigo Freire de Carvalho e Silva é Professor Assistente de Ciência Política (UFPB). Mestre em Ciência Política (UFPE). Doutorando em Ciências Sociais - Estudos comparados das Américas (Unb) e escreve para a Revista Espaço Acadêmico.


Comentário do Blog:

Este texto é uma análise que expressa com clareza o atual momento do nosso partido. Resgata um pouco da nossa história e coloca o PT como sendo o partido da “esquerda possível”. É mais uma contribuição para o debate. Boa luta!

15 de nov de 2007

A Amazônia e a cobiça internacional

Conheci o Professor Marcos Coimbra num curso que fizemos, patrocinado pela Previ, em agosto deste ano. Embora não concorde com muitas de suas afirmações acho importante a defesa da autonomia dos povos, a defesa de seus territórios contra o imperialismo norte-americano. Se invadiram o Vietnã, Afeganistão e o Iraque duas vezes, porque não invadiriam a Amazônia sob o pretesto de “defender a democracia” contra o perigo de “esquerdização” e para conter “a produção de coca”?

Leiam este interessante e polêmico artigo do professor:

A AMAZÔNIA E A COBIÇA INTERNACIONAL

A Amazônia corre sério risco. O Plano Colômbia está em plena execução. Com o pretexto de combate ao narcotráfico, os americanos já estão na parte colombiana da floresta amazônica. Não é de hoje que a rica região amazônica brasileira é alvo da cobiça internacional. A estratégia atualmente adotada pelos "donos do mundo" para conquistar a Amazônia não é pelo confronto direto e sim por via indireta, como, por exemplo, através da demarcação de terras indígenas.

Na realidade, já existem precedentes bem conhecidos por todos nós, brasileiros. Em 1850, os EUA já pregavam a ocupação internacional da região. Em 1930, o Japão defendeu a tese de abrigar naquela área excedentes populacionais. Em 1949, a UNESCO sugeriu a criação do Instituto Nacional da Hiléia Amazônica, com funções executivas. Em 1960, o Instituto Hudson defendeu a tese da criação de sete lagos na região. Em 1992, a chamada ECO-92 (Conferência Internacional), realizada no Rio de Janeiro, avançou o processo. A seguir, constatamos a realização, em maio de 1993, de manobras das Forças Armadas dos EUA, a menos de 100 km de nosso território, sob a desculpa de combate ao narcotráfico, ao mesmo tempo em que construíram gigantesca base aérea no Paraguai e adestraram uma divisão especial para combate na selva.

Em novembro de 1993, a ONU proclamou a Declaração Universal dos Direitos dos Índios, já preparando a criação da chamada "nação yanomami", a ser transformada posteriormente num "estado soberano". É sabido que os EUA concederam 28 ha de terra a cada índio norte-americano, enquanto o governo Collor destinou cerca de 9 milhões de ha a alguns milhares de índios yanomamis, em faixa contínua à concedida pela Venezuela, onde também a mesma tribo conseguiu um terreno equivalente para não mais de 3.000 índios. É muita coincidência. Um índio levaria mais de 70 anos para percorrer, andando, de um extremo a outro, a área demarcada.

O Conselho Mundial das Igrejas, em seu documento "Diretrizes para a Amazônia", prescreve a internacionalização da área. O ex-presidente François Mitterand declarou que "alguns países deveriam abrir mão de sua soberania em favor dos interesses globais". O ex-presidente Gorbachev afirmou "O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais". O ex-vice-presidente dos EUA, Sr. Al Gore, bradou: "a Amazônia é um patrimônio da humanidade e não dos países que a ocupam". E o estrategista da guerra do Vietnã, Sr. Henri Kissinger, enfatiza: "não devemos permitir que surja, ao sul do Equador, mais um tigre asiático". Todos na linha da defesa da extinção do Estado Nacional Soberano brasileiro, da restrição da soberania, da reunião das nações indígenas, do desmonte das Forças Armadas brasileiras, da prevalência das questões ecológicas. Qualquer semelhança não é mera coincidência. E há "brasileiros" que estão de acordo com isto. Por muito menos Joaquim Silvério dos Reis passou à História como traidor da pátria.

Lembram-se das festividades dos 100 anos do Teatro de Manaus, quando uma fortuna foi paga ao tenor Carreras, do filme Anaconda, rodado na região, e na edição de duas séries especiais contra a "destruição da Amazônia", dos seriados Super-Homem e Robocop ? Tudo isto faz parte da gigantesca orquestração dos "senhores do mundo", que financiam regiamente a mídia internacional e nacional para difamar o Brasil, vendendo a idéia de que não temos condições de administrar nosso território. É o emprego da expressão psicossocial.

Na expressão econômica, os organismos internacionais vão até o limite do intolerável em suas pressões. Recentemente , foi quebrado, na prática, o monopólio do petróleo, pelo Dr. David Zylbersztajn, com a licitação de 27 áreas de nove bacias sedimentares brasileiras em junho. A participação das multinacionais no faturamento da indústria passou a 44% e das empresas estrangeiras no segmento das grandes empresas passou para 42%. O crescimento do controle estrangeiro das empresas nacionais cresceu para 35% em 1997. E os alienígenas responderam por 44% do total exportado pela nação em 1997. Das 530 maiores empresas do país, 50% não pagam imposto de renda e das 66 maiores instituições financeiras, 42% também não recolhem, além de 34% dos tributos pagos pelas empresas estarem "sub judice". A cada R$ 1,00 arrecadado corresponde R$ 1,00 sonegado. O pagamento de juros nominais atingirá mais de 120 bilhões em 2001.

Na expressão militar, foi criado o Ministério da Defesa. O Comandante do Exército advertiu: novas restrições exigem estudo acurado para que não " atinjam a capacidade operacional das Forças , no cumprimento de suas missões constitucionais".

Na expressão política, procuram validar ações danosas ao Brasil, tornando-as irreversíveis. O presidente FHC proclamou, em discurso pronunciado no dia mundial do meio ambiente, às margens do rio Japurá: "Esta Amazônia é e será cada vez mais de brasileiros conscientes da importância da Amazônia. Se não houver continuidade das ações a questão ecológica nunca será resolvida no país". E, ao mesmo tempo, enviou ao Congresso a chamada "lei do desarmamento do cidadão". Soa estranho, na atual conjuntura, quando o país não tem nem poder nuclear, nem mais indústria bélica própria, enquanto os EUA aniquilam um país soberano, sem apresentação de provas conclusivas sobre os autores do atentado terrorista. Será que é para facilitar a tomada de nosso território e de nossas riquezas? Afinal, sabemos que numa guerra convencional não temos chance, só restando a guerrilha na selva, pois aos invasores não interessa a destruição das riquezas existentes através de bombardeios. E então será importante a posse de todo tipo de arma, até facas, bastões etc. por aqueles que vão defender nosso patrimônio e nossa soberania

E as últimas máscaras caíram. O senador republicano Paul Coverdell, presidente do subcomitê de relações exteriores do Senado norte-americano para assuntos do hemisfério ocidental, pregou, no dia 25.02.99, em Washington-EUA, a intervenção direta, de maneira unilateral, na América Latina, a pretexto de "proteger" a democracia. O senador afirmou que as ações da OEA (Organização dos Estados Americanos) na região têm sido insuficientes e chegou a afirmar que a América Latina atingiu um estágio em que golpes militares já não são aceitos. De acordo com ele, os EUA "devem ir mais fundo no combate a golpes em câmara lenta, em que um líder eleito livremente esmaga a democracia em seu país". Como exemplo, o senador citou a Venezuela, onde, segundo ele, o presidente Hugo Chávez teria adotado medidas para concentrar o poder em suas mãos, passando por cima de controles constitucionais. As idéias de Coverdell serão difundidas no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um centro de investigação de tendência conservadora.

A História mostra que, ao longo do tempo, os EUA já realizaram diversas intervenções diretas militares, como no Panamá e Granada, mas a maior parte é feita através de ações indiretas, como, recentemente, no Paraguai e no Equador, quando ameaçaram impor sanções econômicas, chegando até a perspectiva de um bloqueio de comércio, a exemplo do ocorrido em Cuba, além de empregar na coação administrações caudatárias, como a do Brasil. No Paraguai, o objetivo explícito era esmagar o general nacionalista Lino Oviedo, próximo de empalmar o poder, pois elegeu, com seu apoio, o candidato vencedor, obrigado a renunciar, depois do assassinato do vice-presidente que a mídia internacional amestrada atribuiu, sem provas, a autoria intelectual ao general. No Equador, chegaram a derrubar, em questão de horas, a junta constituída após a renúncia formal do presidente deposto, depois de "dolarizar" a economia, para mantê-la.

Contam com a cumplicidade, a subserviência, a vassalagem de grande parte das elites dos países periféricos. Por intermédio dos "neoentreguistas", bem como dos velhos entreguistas, dominam a economia, controlam os centros de irradiação de prestígio cultural (meios de comunicação de massa, universidades, teatro, cinema), financiam os seus servos em campanhas a cargos eletivos, de vereador a presidente, elegendo os mais dóceis ao seu comando. Basta o leitor olhar para as administrações de vários países integrantes da América Latina, para constatar a realidade. E, não satisfeitos, chegam ao acinte de empregar seu aparato de inteligência, braço do complexo militar-industrial norte-americano, para, em cooperação com países cúmplices (anglo-saxões), praticar espionagem industrial de seus próprios "aliados", inclusive na Europa, por meio da NSA (Agência Nacional de Segurança), capaz de interceptar as comunicações de qualquer natureza, seja qual for o meio utilizado. É a rede Echelon.

É sabido que um americano médio consome o equivalente a dez vezes aquilo que um brasileiro médio. E querem continuar a usufruir as benesses do avanço do processo civilizatório, sem levar em conta os custos, inclusive ecológicos e ambientais, negando-se até a subscrever o Acordo de Kyoto. Tentam imputa-los aos países emergentes, como o Brasil. O objetivo deles é a manutenção de suas posições hegemônicas, a qualquer custo.

O crime perpetrado contra a humanidade, sob a desculpa da "globalização", em nome do neoliberalismo, onde poucos ganham muito e muitos perdem o pouco possuído, não passará incólume na História. Suas conseqüências danosas continuam a ser flagradas e denunciadas passo a passo, tais como: o esfacelamento de nações outrora prósperas como a Iugoslávia, a destruição implacável de povos e etnias como os palestinos, a imposição do conceito de soberania relativa, quando os EUA, sem autorização expressa da ONU, atacam violentamente outros países. Ontem, a antiga Iugoslávia. Hoje, o Afeganistão. Amanhã, poderá ser qualquer um. Um número cada vez maior de nações e povos ultrapassa os limites da linha de pobreza, devido ao brutal processo de concentração de renda. A riqueza vai sendo transferida progressivamente para os países mais ricos, via comércio internacional, onde os índices de relação de troca penalizam cada vez mais os países menos desenvolvidos. Outro instrumento importante de transferência consiste no pagamento de juros extorsivos, provenientes da formação de dívidas originárias, principalmente, do perverso mecanismo de juros sobre juros, tornando impossível a liquidação do principal. Outro mecanismo empregado reside no pagamento de "royalties", lucros e dividendos, cada vez mais volumosos, fruto da ampliação de investimentos dos "donos do mundo" nas nações periféricas, em especial em setores estratégicos e vitais como comunicações, energia, água.

Parece um retorno ao passado. Na época das grandes navegações, países com pequena extensão territorial e população modesta, como Portugal e Espanha, detentores de tecnologia de ponta, à época, capital e iniciativa, realizaram estes feitos para ocupar regiões ricas em recursos naturais, com vasta extensão territorial, como, por exemplo, as Américas. O filme se repete. Portugal, França e Espanha estão aplicando vastos recursos no setor energia. Os EUA em comunicações. A Vale do Rio Doce comprada pelos "donos do mundo". Possui o direito de lavra de um subsolo possuidor de reservas no valor de trilhões de dólares. A estratégia deles é trocar "papel-pintado" por recursos vitais, que serão escassos no terceiro milênio, como a água.

O Brasil é detentor da maior reserva de água doce do mundo, em sua maior parte na Amazônia. O "ouro branco" será o recurso mais raro e disputado, nos próximos anos. Guerras acontecerão por sua causa. Nos EUA, a Flórida e a Califórnia já estão dessanilizando a água do mar, a custos elevados, por carência de água doce. E eles estão interessados em garantir, para o futuro, a propriedade destes recursos raros. Hoje, o petróleo. Amanhã, a água. Daí a cobiça internacional pela rica região amazônica. Não é só a água. São os recursos minerais, vegetais, a biogenética, a fauna. Não será exagero afirmar que a nação possuidora da Amazônia será a potência do terceiro milênio. Por isto, devemos ocupa-la não só militarmente, como economicamente, para mantê-la no Brasil. Caso não o façamos, de imediato, perderemos, direta ou indiretamente, esta terra de Canaã, herdada de nossos antepassados. Com a cumplicidade de traidores da pátria os "donos do mundo" vão tomando posse da região, a pretextos vários. Demarcação de terras indígenas, sob a orientação de ONGs estrangeiras, compra de territórios, ocupação dissimulada através de "grilagem", criação de reservas ambientais.

É necessário agirmos enquanto é tempo para evitar a perda irreparável.

Artigo publicado em 28.11.2001

Prof. Marcos Coimbra

Professor Titular de Economia na Universidade Candido Mendes, Professor na UERJ e Conselheiro da ESG


Site: www.brasilsoberano.com.br


10 de nov de 2007

O dia do descanço de Deus

Conheci o Adroaldo na década de 90, por conta da sua militância no movimento popular, como vereador e jornalista e também na Administração Popular do PT em Porto Alegre. Marcou-me também suas brilhantes intervenções no Diretório Estadual do PT e seu bom humor. Já conhecia alguns escritos seus, mas foi com agradável surpresa que fiquei sabendo do lançamento do seu primeiro livro, a novela O dia do descanso de Deus, que recebi gentilmente autografado pelo autor. Recomendo a todos, sem dúvida o Adroaldo têm tudo para ser um escritor de destaque no RS.
Abaixo o livro pelo autor:


Às pessoas que lêem

Um dia destes, pouco depois de aprontar esta novela, me deparei com uma discussão ainda pequena sobre o futuro da nossa língua escrita estar cedendo lugar para isto que alguns grupos usam ao se comunicar na internet.
Alguma gente considerando até que aquele será mesmo o dia seguinte.
Quer dizer: o amanhã sem a língua portuguesa.
Pior, sem comunicação das próximas gerações com o que já escrevemos em português até aqui.
Perceba, leitora, perceba, leitor, que vingando aquela hipótese, não teríamos mais as vogais, a acentuação tônica, para ficar no mínimo.
E tente adivinhar em que língua soariam as consoantes.
Não necessita consultar um caingangue, um guarani, um maia, um asteca, um sioux ou um iorubá para saber.
O dia do descanso de Deus é uma novela que se oferece à leitura em Português e tenta ser o mais próxima da língua escrita e falada por estas bandas no milênio passado, antes da ocupação promovida na revolução informatizada, ambientada que está entre os anos 1950 e 1970.
Já foi escrita no século 21, em computador, até com alguma pesquisa pela internet, sim.
Aparece como prova de que a ferramenta não exige uma língua própria, no entanto.
Naquele período também houve uma gíria local, que a língua incorporou e que tonificou a linguagem e mesmo a escrita.
Não foi nem o futuro, nem é passado.
Foi viva e criativa.
Coexistiu em movimento de superação, conservando o melhor da relação entre o novo e o antigo.
O dia do descanso de Deus não é, então, só uma ação de resistência pela Língua Portuguesa.
É também uma experiência minha com você que tem ciência e gosto pela linguagem e vai ler este escrito em qualquer tempo no futuro, em que ambos percebemos não só a importância das vogais, mas a necessidade do efêmero, do perene, do diverso e do comum, do local e do universal.
A novela fala disto também e dos pactos de gente simples sobre amor e honra, ódio e desonestidade.
Que existem no mundo.
É uma novela mundana, do milênio passado, mas contemporânea, que pretende um futuro em companhia dos movimentos da Última Flor do Lácio.
O título não quer polemizar sobre o divino ou o sagrado.
É uma homenagem ao dito popular Deus descansa, o Diabo toma conta, quando aconteceriam as tragédias e desgraças, embora muitos resistam a esta idéia e eu não sou quem as confirme, apenas quem as emprestou do povo.
Sou uma pessoa já muito agradecida à leitura que dedicas a este escrito.
Espero, sinceramente, que tenhas da novela toda uma boa experiência.
Adroaldo Bauer

Vassoura, sabão e água

Hoje JOSÉ ALBERTO SIQUEIRA, O ZECÃO, companheiro de Palmeira das Missões, está mais perto da estrela vermelha. Cara, te cuida aí e torce pela gente aqui! Foi um imenso prazer te-lo aqui na Terra como meu companheiro de luta!

Vassoura, sabão e água

Chamou-me atenção no final da tarde de hoje a lavação do prédio central dos Correios em Porto Alegre. Vinte e poucos anos atrás não poderia imaginar essa cena em um governo petista. Descontados os excessos da mídia, o aproveitamento político da oposição, fatos existem e devem ser apurados.

Um certo dia, na minha Canoas, conversando sobre ética e moral fui repreendido por um companheiro, que disse em tom grave: - Gerson! Tu estás querendo ser muito certinho!!! Disse a ele que esse era nosso patrimônio e que deveríamos preservá-lo. Naquela época nossos problemas eram no varejo, um tesoureiro mal intencionado, algum “pequeno desvio de conduta”, que fazíamos vistas grossas. Nada que pudesse abalar nossa pregação ético-moral.

Hoje é diferente. Somos governo de um dos maiores países do mundo. Toda a esquerda está de olho em nossa administração, nas nossas alianças, nas nossas atitudes.

O “buraco é mais embaixo”, diria meu compadre! Isso recomenda que redobremos nossos esforços para não contaminarmos nosso partido com a corrupção, praga secular em nosso país.

Entendo que não devemos “superdimensionar” o que está acontecendo em nosso governo, entendo também que devemos ter cuidado com as alianças que fazemos. Não podemos jogar no lixo o patrimônio que construímos a duras penas, em anos de sacrifícios, privações, acreditando em idéias de liberdade e uma nova sociedade.

Por isso “superdimensionar” a atitude tomada pelo companheiro Raul Pont é querer fazer uma disputa interna que não leva a nada. Porque? Ora, companheiros, nosso partido está muito parecido com o PMDB, lembram da transição do MDB? Dos éticos daquele partido? Vão expulsando, expulsando... O que sobrará?

Disse no sábado da minha perplexidade em constatar que meu partido está sem sede em Canoas. Parece coisa pouca mas não é! Há muito o PT vêm mudando, eu e mais “uns loucos”, utopistas, os de esquerda, os “radicais”, pensamos, digamos, diferente.

Pensamos naquelas coisas que nos motivaram a militar neste partido. Eu nem falei ainda do socialismo... Argh! Para muitos isso é assunto ultrapassado...

Perdoem-me se vou despejando palavras, sem a preocupação da vírgula, do corretor de ortografia e gramática. Sentimento não se enquadra na gramática.

Traduzir o que está acontecendo com a estrela maior (não é o Lula, combinado?) demanda maior raciocínio, ser racional, o que não quero ser agora. Porque não foi essa a motivação que me trouxe ao Partido dos Trabalhadores. Se fosse racional estaria ganhando rios de dinheiro com o capitalismo... ou não?

Recomendo à todos poesia, apesar de tudo.

Ulisses Tavares, publicitário, escritor, compositor, professor de criatividade e com muito orgulho poeta, disse no seu último artigo que: “acaba o século, mas não acaba a poesia. Porque se ela acabar, meu irmão, acabou-se o que de humano nos resta, nossa capacidade de sermos iguais e diferentes, pequeninos e frágeis, mais fortes e maiores que o mundo.”

Eu diria que a poesia têm a capacidade de transformar em sonhos a realidade. É o que estou fazendo no momento. Pensar minha estrela vermelha em todas suas dimensões, ultrapassar suas cinco pontas, centrada em duas consoantes, pensar aqueles por quem lutamos e que nem imaginam porque tudo isso está acontecendo.

Um fraterno abraço à todos e um bom PED,

À luz da irracionalidade...

Gerson Vieira

Membro dos Diretórios PT Canoas e RS

Poeta e Cronista

Escrito para o PED de 2005 em 08/08/2005

A maturidade política dos bancários

A maturidade política dos bancários

A campanha salarial tem um alto custo financeiro para o Sindicato, mas este investimento é fundamental para o êxito do Acordo Coletivo. Cartazes, panfletos,
aIuguel de auditórios na ABI e na Galeria dos Empregados do Comércio, tiragem diária do Jornal Bancário são alguns gastos extras dos quais não podemos abrir mão, visando garantir um reajuste e uma PLR dignos para a categoria. A Contribuição Assistencial é necessária para cobrir esses gastos e os bancários hoje compreendem bem essa função do desconto. Além disso, este valor é utilizado para pagar uma bonificação aos funcionários da entidade, que trabalham duro o ano inteiro e mais ainda durante a campanha salarial. Esses trabalhadores recebem apenas o reajuste da categoria, já que a entidade
não tem fins lucrativos e logicamente não há PLR. Por isso, a necessidade de uma bonificação.
No Rio, tivemos o cuidado de aprovar, em assembléia, um valor que não pesasse no bolso dos bancários, mas, ao mesmo tempo, desse conta de cobrir essas despesas extras: R$20,00 é o menor valor cobrado entre os sindicatos de todo o Brasil.
Os bancários deram, mais uma vez, uma demonstração de maturidade política. A cada ano diminui o número dos que se opõem ao desconto. É motivo de orgulho saber que praticamente não houve filas nos três dias de entrega das cartas de oposição. Não criticamos quem se opôs ao desconto, visto que é um direito. Mas não podemos deixar de elogiar quem compreendeu bem a função da contribuição e ajudou o Sindicato a tornar-se ainda mais forte na defesa de toda a categoria.
Este ano conquistamos o melhor acordo dos últimos três anos. E isto deve-se à maturidade política dos bancários.
Nosso objetivo é, a cada ano, fechar um acordo melhor e recuperar o poder de compra de toda a categoria. Para isso, contamos com essa mesma disposição de luta e a participação de todos os companheiros e companheiras junto ao
Sindicato. Para mim, particularmente, não chega a ser uma surpresa, mas eu não poderia deixar de agradecer a todos pela participação nas atividades da campanha salarial e na Contribuição Assistencial.
O nosso Sindicato só tem razão de existir com a participação de toda a categoria. Mais uma vez, obrigado bancárias e bancários.

Vinicius de Assumpção
Presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro

Mensagem ao Partido - Eleições PT 2007

Carta de apresentação da candidatura

19/10/2007
Confira a seguir a carta de José Eduardo Cardozo apresentando sua candidatura a presidência nacional do PT.
Companheiras e companheiros do Partido dos Trabalhadores,
Sou candidato a Presidente Nacional do PT.
Ao longo da minha militância atuei como Secretário de Governo da Prefeitura de São Paulo, na primeira vitória do PT na capital de São Paulo; fui vereador na capital paulista e sou deputado federal pelo PT de São Paulo. Acima de tudo, sou um militante do nosso partido.
Aprendi com Perseu Abramo os valores da ética, da democracia e do socialismo. Essa trilogia é sagrada e indissolúvel para mim. Entendo que essas três palavras fazem todo sentido para o PT após o seu 3º Congresso.
Ao lado do companheiro Patrus Ananias, defendi e foi aprovado por consenso pelo 3º Congresso, que o PT elabore o seu código de ética. Nossos inimigos tentaram nos destruir exatamente pelos grandes erros políticos que sofremos nesse terreno. Todo o ódio de classe contra Lula e os trabalhadores – ódio que nunca pode ganhar legitimidade e apoio social – apelou para essa grande falha que sofremos ao longo de 2005, na crise que se abateu sobre o PT. A direita brasileira, ciosa dos seus privilégios e sempre corrupta, arvorou-se em defensora de uma ética que nunca defendeu e, muito menos, praticou. Essa bandeira é nossa e está na nossa origem. Nossa memória está viva. A direita não vencerá! É papel do novo presidente do PT contribuir – mais do que isso, assumir! – o compromisso ético do Partido dos Trabalhadores.
Defendo uma revolução democrática em nosso país. Nosso primeiro governo e nossa reeleição, com o companheiro Lula à frente, apontam para essa grande transformação brasileira. Desenvolvimento, democracia participativa, construção de uma nova ordem internacional, distribuição de renda, de propriedade, de cultura e de poder, sustentabilidade ambiental, direitos às mulheres, negros, liberdade de orientação sexual, reconhecimentos dos direitos das comunidades indígenas, espaço e liberdade para a juventude, respeito e solidariedade entre gerações. É possível e devemos lutar por uma nação justa, democrática, no caminho do socialismo e em solidariedade com os povos sofridos do mundo, em especial nossos irmãos e irmãs latinoamericanos. Utopia? Como disse Galeano, a UTOPIA serve para caminhar sem perder o rumo!
Já se disse que uma grande questão só se coloca historicamente quando há forças sociais capazes de resolvê-la. Muito avançamos nesse segundo governo. É preciso avançar muito mais. Sobretudo na democracia. Reforma política, bloco político e social de esquerda, governo de alianças coerentes com seu programa e seu modo de governar. Participação popular!
E o papel do nosso partido? Cabe ao presidente do PT construir, junto com a direção nacional, um papel programático para o nosso partido, que é diferente de pedir audiência e diferente de pressionar. Um papel de construir diálogos e direção para as grandes disputas que transcorrem no país e no governo a partir de posições bem definidas. Esse papel precisa ser encampado e conduzido pelo novo presidente do PT.
Nossa bancada parlamentar precisa dessa referência construtiva, de diálogo e de atuação conjunta com a direção. Nosso grande eleitorado precisa perceber uma atuação coerente dos nossos parlamentares. Precisamos de um forte bloco parlamentar de esquerda e de alianças que sustentem efetivamente nosso governo. Nossa atuação parlamentar deve estar em sintonia com a opinião pública democrática e com os interesses sociais que representamos! Nossa governabilidade deve comportar uma atuação coerente e digna do PT no parlamento.
Uma nova relação com os movimentos sociais é fundamental. Sem ela o PT não conseguirá representar seu programa da revolução democrática e socialista para o Brasil. Além de encontros e de debates, é preciso enraizar o partido nos movimentos e dialogar com suas direções. E para isto é necessário que o partido retome as bandeiras sociais dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, da reforma política do Estado, recolocando a supremacia do público sobre o privado, do direito de todos à informação e ao conhecimento.
Ao PT cabe construir-se para dirigir suas conquistas institucionais e influir politicamente nos grandes temas nacionais, sem pretender substituir as lutas sociais e os grandes movimentos democráticos da sociedade brasileira, mas atuando em consonância com eles. Cabe discutir e construir posições com nossos companheiros no governo e nos movimentos sociais, com autonomia e com posições claras. Esse processo deve fazer parte do nosso cotidiano e não há porque transformá-lo em impasse, favor do governo ou concessões. Um presidente representativo de todo o PT, portador de um programa e articulado com os movimentos sociais, em conjunto com a direção nacional do partido, deve ter condições de exercer esse papel dirigente.
Para tudo isso é preciso ter um partido organizado, democrático, consciente, com posições definidas sobre as principais questões em disputa na luta política. É preciso reconstruir nossos laços com a imensa base de filiados, revalorizar a militância. Sem clientelismos, sem controles. Com democracia, formação política plural, participação em núcleos.
É preciso ter um presidente de todo o partido, não de uma “estrutura”, nem de uma fração ou de grupos de pressão. É preciso ser o presidente de um grande partido de militantes, filiados e filiadas.
Nosso partido tem uma história que está ligada com as grandes lutas do povo brasileiro.
Quero assumir um compromisso com cada filiado, com cada filiada. Um compromisso de recolocar nosso partido no caminho trilhado por uma geração de militantes que lutou contra a ditadura, que lutou pelas diretas, que se manteve na intransigente defesa dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras, que sustentaram a bandeira do socialismo e da democracia na ofensiva neoliberal, dos que sempre estiveram ao lado do povo.
Quero ser um presidente do PT que faça jus a essa grande história.

José Eduardo Cardozo - 140

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Carta de apresentação do candidato à presidência nacional do PT, da chapa Mensagem ao Partido. No decorrer do período estarei publicando materiais das outras chapas. Bom PED 2007 a todos.


8 de nov de 2007

Um emprendimento pré-marxista

Um empreendimento pré-marxista



por Slavoj Zizek




Hoje em dia, em meio a uma dolorosa revolução das forças produtivas, é forte a tentação de dar vida nova à velha, desdenhada e quase esquecida dialética marxista de forças produtivas e relações de produção: qual será a influência da digitalização e da globalização não apenas sobre as condições de produção em sentido estrito, mas sobre nossa existência social, nossa práxis e nossa experiência (ideológica) da interação social? Marx gostava de confrontar a revolução política às transformações revolucionárias dos processos de produção. Seu "Leitmotiv" rezava que a máquina a vapor do século 18 contribuíra mais para a revolução da vida social do que todos os espetaculares acontecimentos políticos. Essa idéia não será agora mais relevante do que nunca, quando as transformações mais inconcebíveis da produção são acompanhadas de uma espécie de letargia política? Enquanto nos vemos em meio a uma radical metamorfose da sociedade, muitos pensadores igualmente radicais duvidam da possibilidade de uma ação política à altura.


Ademais, as noções de que dispomos para a descrição da nova constelação de forças produtivas e relações de produção (sociedade pós-industrial, sociedade da informação etc.) não são conceitos genuínos. São soluções de emergência: em vez de nos capacitar a refletir sobre a realidade histórica que designam, elas meramente nos dispensam do dever de pensar, aceitar ou renegar. A resposta-padrão dos pós-modernos, de Alvin Toffler a Jean Baudrillard, é a seguinte: não podemos pensar essa novidade, pois estamos presos aos velhos paradigmas industriais. Mas a verdade é o exato oposto desse lugar-comum: essas tentativas de superar ou obliterar a produção material, descrevendo a transição atual como passagem da produção para a informação, não serão afinal de contas uma tentativa de evitar a dificuldade de refletir sobre a ligação entre essa metamorfose e a estrutura de produção coletiva? Em outras palavras, a verdadeira tarefa não consistiria justamente em pensar o lugar do novo a partir dos conceitos da produção material coletiva? É justamente o que tentam fazer Michael Hardt e Antonio Negri em "Empire", um livro que se propõe a reescrever o "Manifesto Comunista" com vista ao século 21. Hardt e Negri descrevem a globalização como desterritorialização múltipla: o capitalismo global triunfante penetra em todos os poros da vida social, até mesmo nas esferas mais íntimas, e instaura uma dinâmica inédita, que não se baseia mais em estruturas de dominação patriarcal ou hierárquica, mas produz identidades flutuantes e híbridas. Ao mesmo tempo, essa decomposição fundamental de todos os laços sociais essenciais liberta o gênio da lâmpada: ela libera um grande potencial de forças centrífugas, que o sistema capitalista não será capaz de conter. Justamente por conta de seu triunfo global, o sistema capitalista é hoje mais vulnerável do que nunca. Segue valendo a velha fórmula de Marx: o capitalismo produz seus próprios coveiros.




O espaço transnacional


Hardt e Negri descrevem esse processo como a passagem dos Estados nacionais para o Império global, para o espaço transnacional, comparável à Roma antiga, onde proliferavam núcleos híbridos de identidades diversas. A política pós-moderna concentra-se em guerras culturais e lutas por reconhecimento: seu princípio básico é a tolerância sexual, étnica e religiosa, ela prega o evangelho multicultural. À leitura desses autores pós-modernos, é difícil fugir à impressão de que gostaríamos de banir os turcos e os demais imigrantes simplesmente porque não toleramos sua "outridade".


A intolerância sexual e cultural serve de chave para as tensões econômicas, e não o contrário, como nos bons velhos tempos do marxismo ortodoxo. O grande mérito de Hardt e Negri está em sua tentativa de trazer à luz a natureza contraditória do capitalismo turbinado e de identificar as forças progressistas no interior de sua dinâmica. Seu esforço heróico destaca-se da atitude corrente da esquerda tradicional, que cautelosamente procura meios de deter as forças destrutivas da globalização e de salvar o que puder ser salvo do Estado de Bem-Estar Social. Essa atitude é perpassada por uma desconfiança conservadora diante da dinâmica da globalização e da digitalização, em contraste com a confiança marxista nas forças transformadoras do progresso.


Entretanto sente-se já no nível do estilo um antegosto dos limites da análise de Hardt e Negri. Sua análise socioeconômica é pobre de percepções concretas e precisas, o que é escamoteado por meio do jargão deleuziano de multiplicidades, desterritorializações etc. Não é, portanto, de espantar que os três conselhos práticos que fecham o livro soem como um anticlímax. Os autores propalam a luta política por três direitos globais: o direito à cidadania global, o direito à renda mínima e a reapropriação dos novos meios de produção (isto é, o acesso e o controle da educação, da informação e da comunicação). É paradoxal que justo aqui nossos dois poetas da mobilidade, da multiplicidade, da hibridização etc. se saiam com três exigências formuladas na terminologia vigente dos direitos humanos universais.


O problema dessas exigências é que elas pairam entre o vazio formal e o radicalismo impraticável. Tomemos o direito à cidadania global: em princípio, não há como discordar; mas, se isso deve significar algo mais que uma solene declaração no estilo costumeiro da ONU, se ela deve ser levada a sério, então deveríamos nos preparar para um desmoronamento geral, passando pela promulgação de leis globais e pela dissolução das fronteiras nacionais.


Nas condições atuais, isso desembocaria numa invasão dos EUA e da Europa Ocidental pela mão-de-obra barata da Índia, da China, da África, seguida de um levante popular contra os imigrantes de tais proporções que Haider pareceria um modelo de tolerância multicultural. O mesmo vale para as demais exigências: o direito universal à renda mínima seria excelente, mas como alcançaremos as condições socioeconômicas para sua instauração? Essas críticas não se referem apenas a detalhes empíricos secundários.


O problema fundamental de "Empire" está no pouco fôlego de sua análise fundamental: de que modo o processo socioeconômico global poderia abrir espaço para medidas radicais comparáveis à revolução proletária, que, na visão de Marx, superaria o antagonismo fundamental do modo de produção capitalista? Por isso mesmo, "Empire" é ainda um livro pré-marxista.




Publicado em Antroposmoderno, em 19/03/2006