4 de fev de 2008

Trabalhadores do Brasil



“Hoje é dia do trabalhador
Que conquistou o seu lugar
E vai nossa vila, fazendo história
Pra luta do povo eternizar.”


Tive o prazer de assistir, pela primeira vez, o ensaio de uma escola de samba aqui no Rio. Foi o ensaio do G.R.E.S. Unidos da Vila Isabel no dia 31 de janeiro. Agradeço aos amigos Adeílson e Vinícius pelo convite. O tema deste ano é uma homenagem aos trabalhadores.

A escolha desse tema resgata os enredos engajados com temáticas sociais que a Vila levou para a Marquês de Sapucaí no final dos anos oitenta e início da década de noventa. Dentre esses temas ganham destaque Kizomba, Festa da Raça (1988-Vila Isabel Campeã); Direito é Direito (1989); e, Se Essa Terra, Se Essa Terra Fosse Minha...(1990). No carnaval de 2006, também com um enredo de cunho social, Soy Loco Por Ti América – A Vila Canta a Latinidade, a Agremiação conseguiu o segundo campeonato no Grupo Especial.

O enredo Trabalhadores do Brasil tem como questão central por fim ao mito da indolência nacional, segundo o qual o brasileiro é um sujeito preguiçoso, indolente e avesso ao trabalho. A origem desse mito teve o seu ponto de partida com a chegada a essas terras do homem branco, que se deparou com povos com uma cultura totalmente diferente da européia. Os nativos pescavam, coletavam, caçavam, teciam, entre outras atividades necessárias para garantir o seu auto-sustento. Esse fato levou o europeu a considerar o gentio um sujeito inerte, voltado unicamente para o ócio, incapaz de produzir riquezas. Essa visão eurocêntrica tem se mantido viva em nosso imaginário até os dias de hoje. O enredo, portanto, visa desmistificar esse ponto de vista errôneo que tem estigmatizado o nosso povo.

No início dos anos sessenta, forças intersindicais reivindicaram melhoria das condições de trabalho. Esse movimento conquistou o 13º salário para os trabalhadores urbanos. Era também o tempo das reformas de base. E, os trabalhadores rurais exigiam reforma agrária. Com a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, muitas ligas camponesas se transformaram em sindicatos rurais.

Em 1964, deu-se início aos anos de chumbo. Os trabalhadores ainda assim lutaram por melhores condições salariais e pela liberdade de expressão. Maior exemplo dessa rebeldia foi a greve operária do ABCD paulista no ano de 1978. Os metalúrgicos se rebelam, e cruzam os braços. Sua luta abre caminho para a redemocratização do país.

A escola homenageia o grande protagonista dessa história feita de lutas e conquistas, história que tem um começo, mas que certamente não tem um fim, já que as lutas continuam. O Brasil conquista seu espaço no mercado internacional, fruto do trabalho de homens e mulheres, que com sua dedicação e determinação, constroem esse imenso país.

O trabalhador brasileiro será visto no enredo como sujeito ativo da sua própria história, não como um sofredor, um “pobre coitado”, um sujeito pacífico que a tudo aceita passivamente. Ao longo da história do nosso país, diversos foram os momentos que os trabalhadores se rebelaram e lutaram para conseguir melhores condições de vida e de trabalho. Nada lhes foi dado gratuitamente. Seus direitos foram conseguidos com base em muito conflito e negociação.

Hoje a escola se apresenta na Marquês de Sapucaí, estarei torcendo pela Vila Isabel, pela sua tradição, por Noel, o poetinha da Vila, componentes que vão me conquistando a cada dia na cidade que me recebeu com os braços abertos.

Gerson Vieira, trabalhador, poeta e cronista


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