4 de abr de 2008

As ruas da minha cidade

As ruas da minha cidade

Gerson Vieira (*)

Anos atrás conversava com o escritor canoense Henrique Freitas sobre as ruas da nossa cidade. Engraçado, as cidades mudam mas suas ruas permanecem as mesmas, talvez uma rara mudança no plano diretor. Pensamos nela (a cidade) e vamos recordando todos os anos que passamos por seus traços, cobertos de areião, pedras ou asfalto, mais recentemente.

Às vezes sabemos da rua pela placa indicativa, porque velhas casas foram reformadas, pintadas, aumentadas ou derrubadas para novas construções. Novos personagens habitam os dois lados, postes de madeira foram trocados por outros de cimento. Comércios surgem, cabelereiros, salões de beleza, mini-mercados, supermercados, shoppings, condomínios e estacionamentos. Mas, para nossa surpresa, lá encontramos o bar do “seu” João, a Padaria do Português, o salão do Baixinho, onde, quando criança, cortava o cabelo e ficava louco de medo imaginando perder a orelha num desviar da tesoura. As ruas da minha cidade não mudaram muito, novas foram acrescentadas por conta de lançamentos habitacionais, aumentando o trabalho dos vereadores na disputa pelo nome que as mesmas deverão ser batizadas. Visconde de Taunay, Coronel Vicente, Saldanha da Gama, a rua da extinta fábrica de móveis Estofados Esplêndidos, meu primeiro emprego, e que no auge, empregou cerca de 500 pessoas, quase todos moradores do bairro Harmonia.

A prefeitura de Canoas lançou dois volumes resgatando personagens que emprestaram seus nomes para as ruas nestes 68 anos de emancipação. Quando estava lendo as cartas de Visconde de Taunay, na Biblioteca Nacional, lembrei da rua com seu nome, poucos sabem quem foi esse personagem. Visconde de Taunay (Alfredo d’Escragnolle Taunay), engenheiro militar, professor, político, historiador, sociólogo, romancista e memorialista, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de fevereiro de 1843, e faleceu também no Rio de Janeiro em 25 de janeiro de 1899. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Foi na busca de um parentesco longínquo que descobri um pouco desse homem, das suas preocupações. E as ruas estão aí para homenageá-los, muitos são esquecidos pela ingratidão e falta de memória dos moradores das cidades. Dias atrás estive em Leopoldina, lá residiu e faleceu o poeta Augusto dos Anjos, que foi diretor do Grupo Escolar da cidade mas poucas pessoas sabiam destes detalhes.

As ruas guardam lembranças, de pessoas, de fatos, de tragédias e de lutas, como a passeata dos cem mil, em 1968, no Rio de Janeiro que ocupou as ruas daquela cidade no maior protesto contra a ditadura militar até então.

Ao passar por uma rua de sua cidade, procure saber quem foi o personagem que foi homenageado e o porquê. Assim você poderá conhecer melhor onde mora e resgatar, histórias e lembranças que não fazem parte dos livros mas são guardadas na memória de transeuntes e talvez nunca sejam registradas para a posteridade.

(*) Sobre Gerson Vieira

Nasceu em Canoas, RS, reside atualmente no Rio de Janeiro. Formado em Ciências Contábeis pela Ulbra - Universidade Luterana do Brasil. Membro da Casa do Poeta de Canoas e da ACE - Associação Canoense de Escritores. Publicou várias crônicas no jornal Diário de Canoas. Participou das duas coletâneas da Casa do Poeta de Canoas (2003 / 2005).

2 comentários:

Vinni disse...

Olá Gerson, você escreve poesia? Gostaria de conhecer alguma, não encontrei aqui no seu blog.

Quando puder faça uma visita em www.vinni.web.br.com

Abraços!

Vinni Corrêa

Eu disse...

Existem maneiras e maneiras de escrever... A sentida é sempre a mais linda...
te amo!

Tua Lu...