5 de mar. de 2008

Para onde vai a Revolução Bolivariana?

AMÉRICA LATINA

Para onde vai a Revolução Bolivariana?

A estratégia do governo dos EUA contra Chávez é tentar desgastá-lo e isolá-lo o máximo possível. A Colômbia é sua base política e militar de operações, não apenas para desestabilizar Chávez, mas para recuperar a influência perdida na América Latina.

Após a derrota eleitoral da Revolução Bolivariana no referendo de 2 de dezembro de 2007, na Venezuela, todo o processo político que se vive no país entrou em um período de redefinições. O que estava em jogo naquele momento era algo muito importante, sem dúvida: uma reforma da carta magna não é coisa de todos os dias. De qualquer modo, a relevância dessa eleição não esteve tanto no que a população estava escolhendo em concreto. Se alguém pensou que a aprovação da reforma que estava sendo submetida a escrutínio popular levava ao socialismo, errou; o socialismo é um processo infinitamente mais complexo do que um texto constitucional, é algo que não se decreta em um papel ou em uma sala do Parlamento.

Portanto, se tivesse ganho a proposta do SIM isso não levaria automaticamente a mudanças revolucionárias na estrutura socioeconômica da sociedade nem na consciência da população. Talvez ajudasse, mas isso não é o socialismo. O aprofundamento da revolução poderia ser feito, inclusive, nos marcos da constituição de 1999, atualmente vigente. O que define uma mudança revolucionária em uma sociedade são as relações de força entre as classes, coisa que não se decreta por lei. A importância tão grande do que aconteceu nesse 2 de dezembro esteve em que a Revolução perdeu essa batalha e no significado político posterior desse fato.

Foi a primeira derrota eleitoral de todo o processo encabeçado por Hugo Chávez em nove anos, depois de dez triunfos consecutivos em diversas instâncias: eleições presidenciais, legislativas, para governadores, para prefeitos, referendo revogatório; mas essa única derrota teve um impacto enorme.

A Revolução Bolivariana prossegue independentemente deste fato: não se perdeu o controle político do Estado. Mas foi uma prova de fogo – com certeza inesperada – de como estão as correlações de força na Venezuela. E isso mostrou a necessidade de reformulações urgentes no discurso do governo. O resultado do referendo mostrou que, em alguma medida, havia um triunfalismo excessivo no campo do bolivarianismo, que tinha algo de "castelo de cartas" na construção do processo revolucionário. Mostrou, também, que a população sempre está divorciada do Estado em uma sociedade de classes, que os "políticos profissionais" têm uma lógica diferente – inclusive confrontada – à lógica das massas.

E mostrou, mais uma vez, de modo inequívoco, que a luta de classes está em pleno auge neste momento da história do país, porque cada vez que se pretende avançar em reivindicações populares, as forças conservadoras (oligarquia nacional, o imperialismo dos Estados Unidos –e também poderíamos acrescentar "novos ricos" bolivarianos?) reagem de modo feroz. Isso é o que se viu na campanha monumental que foi feita para apresentar um contrapeso à reforma (que supostamente abria caminhos para o socialismo) e, mais ainda, se viu no que aconteceu a partir de 3 de dezembro: tendo ganho este round (apenas uma de onze eleições, muito pouco em termos de percentagem, está certo, mas muito importante em outro sentido), a direita sentiu que retomava a iniciativa política e o ataque durante os meses imediatamente seguintes ao referendo tornou-se mais violento, mostrando que, sem dúvida nenhuma, vai continuar piorando durante todo o ano de 2008, que, por sinal, será um ano com decisivas eleições em prefeituras e governos, em dezembro próximo.

De alguma maneira essa eleição de 2 de dezembro ficou como um divisor de águas: marcou o momento até onde chegou o maior avanço do movimento bolivariano e a experiência de "revolução bonita" do presidente Chávez – revolução, ou melhor ainda: processo político multiclassista com um horizonte socialista – e um ponto crucial de inflexão: a partir do ponto em que se chegou só se pode avançar realmente para o socialismo ou começarão a se perder os avanços conseguidos nestes anos.

Muito já foi dito sobre as causas destes resultados no referendo. Sem ânimo de repetir, partindo somente da base de que o acontecido é produto de uma soma complexa de fatores (guerra midiática ímpar da direita, ataque da contra-revolução por meio de mecanismos como a sabotagem econômica com desabastecimento e inflação, ideologia capitalista profundamente enraizada, inclusive entre a população, burocratização das estruturas do Estado cujo resultado é um fraco rendimento na gestão de governo, pelo qual as bases passaram fatura, falta de vanguarda revolucionária, além o líder carismático, e ausência de partido político com clara ideologia de mudança –o PSUV não é, e tal como vão as coisas muito provavelmente nunca será–, processo político baseado em uma única pessoa, sem participação real das massas na tomada de decisões, etc. etc.), tudo isso abre vários possíveis cenários a partir de agora.

Como mínimo, é possível delinear estes três: 1) o processo se radicaliza e se constrói um verdadeiro poder popular com um Estado revolucionário que começa a empreender tarefas socialistas pendentes até agora, com a figura do líder histórico encabeçando essa radicalização; 2) o processo fica estancado, se burocratiza mais ainda e a chamada "direita endógena" (empresários bolivarianos) passa a controlar tanto o aparato do Estado (com o manejo do petróleo) como o PSUV. Hugo Chávez também é parte dessa involução; 3) a Revolução Bolivariana é retirada do poder e a direita tradicional, apoiada por Washington, retoma seu protagonismo político. Isso poderia ocorrer nas próximas eleições presidenciais de 2012, mas tudo leva a crer que a estratégia do império é voltar a controlar o mais rapidamente possível estas reservas petroleiras e cortar pela raiz as iniciativas integracionistas que estão sendo desenvolvidas com a ALBA e com uma Venezuela "incômoda"; portanto, tentariam terminar antes o atual processo, sem esperar esses futuros comícios.

Descartando a princípio uma intervenção militar direta dos Estados Unidos, ou inclusive um golpe de Estado violento por parte de setores das forças armadas não-chavistas, a estratégia poderia ser jogar ao desgaste e à implosão da Revolução Bolivariana. Instrumentos para conseguir isto não faltam e de fato essa estratégia já está funcionando a todo vapor.

Cenários possíveis

1) O povo no poder: socialismo do século XXI?
A primeira reação de boa parte da população chavista, no mesmo momento em que foram conhecidos os resultados do referendo, foi pedir "limpeza". Limpeza de tantos quadros na direção do aparato de Estado disfarçados de revolucionários, de tantos burocratas que retardam as mudanças, de tantos oportunistas que vêm obstruindo o verdadeiro avanço da revolução, causadores –segundo o sentir popular– dessa derrota. Esse sentir popular espontâneo –que certamente não estava errado– foi o de buscar promover uma transformação de raiz em uma máquina que se mostra ineficiente por todos os lados, cada vez mais, com um certo arzinho de corrupção que não é mais possível ocultar.

A reação do presidente Chávez foi reconhecer que "por enquanto" não tinha conseguido triunfar com a reforma, mas que a luta revolucionária vai continuar. Como parte dessa luta, rapidamente apareceu a necessidade de revisar, de avaliar criticamente, o que foi feito até agora para reorientar o processo que está em marcha. Daí surge sua proposta das 3R (revisão, retificação e reimpulso). Mas junto com isso também veio o chamado para reduzir um pouco a velocidade na marcha das mudanças, dando a entender que se estava indo rápido demais. Congruentemente com isso veio também seu chamado a buscar alianças com outros setores sociais e seu convite para que a "burguesia nacional" se somasse a este processo.

Nesse marco "de reconciliação" apareceu sua não muito oportuna lei de anistia para muitos dos golpistas de 2002 e a liberação dos preços de muitos produtos da cesta básica. Dado seu gigantesco peso moral na população, se bem estas declarações e medidas concretas podem ter causado um certo incômodo, sua figura não ficou maculada por isso e a ampla maioria popular não deixou de tê-lo como seu líder intocável.

Alguém poderia pensar que essas manobras faziam parte de uma jogada que Chávez se permitiu levando em conta seu enorme faro –que até agora, sem ser marxista declarado como ele mesmo diz, sempre o levou a tomar as medidas mais acertadas do ponto de vista do campo popular–, e com isso se poderia conceder a ele o beneficio da dúvida e pensar que a força revolucionária do povo ainda está fresca, viva e que, apoiando-se nele, pode de fato reorientar esta revolução para um rumo socialista.

Como cenário, não há dúvida que isto seria possível. Há diversos indícios que mostram que isso não é o mais próximo, que a revolução não está marchando a toda velocidade para a esquerda, mas é claro que a possibilidade existe. Há diversos setores de base no povo chavista que continuam pedindo a "limpeza" de toda a burocracia e o aprofundamento do processo rumo a posições francamente de mudança. Há setores populares organizados –nos bairros das principais cidades, no âmbito sindical, no movimento campesino, entre os estudantes, nos meios de comunicação alternativos– que continuam trabalhando por um horizonte socialista. E muitos desses setores são, atualmente, aspirantes a militantes no PSUV. Na base, na discussão no interior dos seus batalhões, todo esse potencial revolucionário continua com suas bandeiras de luta no alto, sem abaixar nenhuma, e é aí que está a possibilidade de continuar aprofundando o processo.

Esse movimento popular ainda espera muito do seu comandante, e não há dúvida de que está moralmente em condições de repetir outro 13 de abril caso for necessário. Diante da atual conjuntura de eleições de governo e prefeituras para o final do ano, todo este potencial transformador pode ficar robustecido. Ao eleger os candidatos para as eleições a todos estos cargos na base, fazendo a discussão no próprio seio do partido, poderão ser retomadas as consignas de luta socialista, de democracia participativa, de radicalização das medidas para as quais a reforma proposta podia servir como trampolim.

Como já aconteceu em outras oportunidades, a conjuntura empurrou para a frente os dirigentes revolucionários, as massas superaram seus condutores. O clamor das bases –depois dos ataques da direita no golpe de Estado, da sabotagem petroleira ou da greve patronal– levou Chávez a radicalizar em relação ao seu programa original, com o qual ganhou as primeiras eleições em 1998. A pressão popular, a mobilização de rua, foi levando todo o processo para novas definições, e é assim que aparece o horizonte socialista. "Socialismo do século XXI" foi chamado, marcando distância da velha burocracia dos partidos comunistas fossilizados da Europa do Leste.

Se Chávez introduz essa idéia e volta a falar em socialismo –após anos de liberalismo feroz nos quais a simples menção dele estava proibida– é porque a dinâmica de mobilização social foi levando a isso. Apesar de que depois da derrota de 2 de dezembro tem havido um certo freio no avanço rumo à perspectiva socialista, em nenhum momento se prescindiu dela. A vitalidade da mobilização popular ainda está aí. Muitos setores de base até já pediram ao governo a formação de milícias populares armadas de defesa revolucionária, o que poderia fortalecer ainda mais a marcha da revolução.

Ou seja: em boa parte da base permanece intocada a convicção de mudança, de aprofundamento das transformações que foram empreendidas nos primeiros anos da revolução, quando nasceram as missões, quando se consegue terminar com o analfabetismo, quando surge a ALBA.

É verdade que em torno de três milhões de pessoas que tinham votado por Chávez nas eleições de dezembro de 2006, perante o chamado para referendar a proposta de reforma constitucional em dezembro de 2007 não foram às urnas. É verdade que aí não há uma massa de oligarcas contra-revolucionários. De qualquer modo, é tarefa da dirigência da revolução ver o que exatamente aconteceu aí, com essas bases chavistas, e procurar as correções adequadas: se foi que a propaganda da direita surtiu efeito, será preciso buscar uma nova política de comunicações mais efetiva. Se a burocratização de uma parte da máquina do governo desmotivou boa parte do eleitorado, é fundamental fazer a limpeza solicitada. Mas em todos os casos as correções se impõem. E é a mobilização desde baixo a única garantia de que isso vai acontecer. Por isso desempenha um papel decisivo a militância fecunda, envolvida, convencida dos valores socialistas, para pôr novamente em movimento essa população chavista que hoje parece um pouco desorientada, que continua acreditando em seu líder mas se sente defraudada pela ampla maioria da equipe de governo.

Ninguém disse que a marcha rumo ao socialismo foi descartada, apesar de que neste momento os efeitos da derrota eleitoral ainda se sentem. Mas, justamente com a nova disputa eleitoral prevista para o final do ano, agora é um momento oportuno para voltar a acender a chama revolucionária com eleições democráticas e transparentes dos candidatos do movimento bolivariano desde baixo, estreitando o campo para a direita endógena, burocrática e corporativa que foi se infiltrando na revolução.

Em outros termos: o cenário de uma repotencialização à esquerda está vigente. Para concretizar essa via, é hora de mobilização, de maior diálogo de ida e volta com o líder, de não retomar a totalidade da recém fracassada proposta de reforma, mas promover apenas alguns pontos, os mais importantes vistos da perspectiva do campo popular: redução da jornada laboral, leis sociais para os trabalhadores informais, democratização das universidades, fortalecimento dos conselhos comunais. Essa mobilização, por outro lado, poderia despertar em Chávez a convicção de que ou se faz uma retificação de verdade, ou não haverá um caminho socialista, inclusive mostrando a ele que o excessivo presidencialismo que se viveu até agora não é uma fortaleza senão, pelo contrario, uma fraqueza para todo o processo.

O cenário de uma marcha rumo à radicalização da revolução está aberto, com um poder popular vivo de onde poderiam sair novos quadros dirigentes para superar a atual casta burocrática que parece não estar à altura do que se requer.

Apesar de que nunca se terminou de definir com exatidão o que é o socialismo do século XXI (a Cuba de Fidel?, a experiência chinesa com capital privado?, uma versão bolivariana à venezuelana?), sua viabilidade ainda é possível. Da mobilização popular, da organização e do autêntico poder das bases protagonistas depende a concretização desse cenário. O problema que surge é que ainda não há um partido revolucionário conformado, ou seja que a tarefa urgente é dar forma a essa vanguarda, trabalhar em seu seio, abrir cada vez mais o debate.

2) A direita endógena no poder: a Nicarágua de Daniel Ortega pós "bolão"?
"Se algo pode acabar com uma revolução, esse algo é a corrupção"(Fidel Castro)

Este outro cenário aparece como o mais possível porque, pelo visto, é o que neste momento está se consolidando. O faro popular não estava se enganando quando, imediatamente depois de conhecida a derrota de 2 de dezembro, pedia "limpeza". É esse grupo de funcionários sem ideologia revolucionária, alheio a um projeto de transformação econômico, social e cultural, que tem ido ocupando em forma crescente diversos cargos no aparato de Estado, que com sua falta de solvência –mais ética do que técnica– contribuiu em muito para a derrota no referendo. É esse grupo, ao que se passou a chamar "direita endógena", que deve ser limpo, removido. Caso contrário, a revolução corre perigo.

Mas a existência dessa direita, que parece ter um poder crescente no jogo político atual, denuncia um limite de todo o processo bolivariano: isto não nasceu desde baixo, como revolução popular, e apesar de já ter começado a se movimentar rumo a um horizonte socialista, ainda está muito longe de alcançá-lo. Esta burocracia sem consciência revolucionária –mesmo que fique repetindo até o cansaço as consignas chavistas e vista uma flanela vermelha para cada mobilização que assiste pontualmente– não tem nada de semelhante com uma postura socialista. E vamos dizer, de passagem, que revolução não é –ou não é somente– ter a praça cheia de chavistas, a "maré vermelha". Ao longo destes nove anos as praças ficaram cheias de flanelas vermelhas e de consignas, e as eleições foram ganhas uma atrás da outra com um Hugo Chávez quase heróico, mas isso não basta para mudar revolucionariamente uma sociedade. Esta burocracia dominante é a patética demonstração disto.

Mudar uma sociedade é transformar as relações de poder entre as classes a partir de uma nova organização do processo de produção, mudando, além disso, a ideologia, a consciência e a cultura dominante. É verdade que nestes anos foram dados passos importantes na forma de repartir a renda gerada pelo petróleo, fazendo com que chegasse à grande maioria da população por meio dos novos programas sociais; isso teve um valor extraordinário. Foi por isso que a direita pôs o grito no céu, porque os que eram historicamente excluídos começaram a ser levados em conta (mau exemplo que pode se espalhar por outros países, por isso se buscou cortá-lo de raiz). Mas a forma da propriedade dos meios de produção não mudou.

E apesar de ter sido iniciado um processo de promoção de novos valores socialistas, a cultura geral não sofreu maiores mudanças. Permaneceu o individualismo, se manteve o consumismo grosseiro e uma brega cultura de ostentação. Portanto, conseguir reforçar essas tarefas de mobilização ideológica-cultural é definitório. De não ser assim, é impossível avançar de verdade para a justiça social.

Sabendo que o fato cultural é mais difícil de mudar do que nenhuma outra coisa, poderíamos dizer que é aí onde a revolução ainda está mais fraca. A grande maioria dos funcionários de governo, dos quadros de direção e dos quadros médios da estrutura do Estado, longe de mudar –ainda que se declarem chavistas– continuaram com a lógica capitalista da qual são herdeiros. A busca de beneficio econômico imediato, o individualismo, o consumismo, o próprio destaque pessoal, continuaram vigentes como padrões dominantes na prática ideológica do dia-a-dia. Isso demonstra algo, talvez de um modo trágico ou grotesco: não dá para tirar leite de pedras. Se não houve um processo revolucionário, por que todos esses funcionários deveriam ser agora, quase da noite para o dia, inquebrantáveis militantes com uma ética socialista blindada e incorruptível? E a corrupção se manteve, herança de uma longa tradição de país que vive de renda.

Essa direita de classe média, sem consciência revolucionária, mais apegada ao luxo banal, ao whisky escocês e ao automóvel de luxo como marca de "sucesso" pessoal do que aos valores de transformação social e à solidariedade, foi a que lentamente ocupou o cotidiano dos quadros dirigentes. E essa mesma consciência individualista foi a que começou a se impor na formação do novo partido socialista, um fruto raro sem linha política clara, sem projeto revolucionário definido. Como qualquer formação político-social, essa direita buscou sua expansão e foi ocupando "naturalmente" os espaços-chave da revolução. Hoje, em boa medida é o novo empressariado "bolivariano" que, com um discurso ambíguo, às vezes até com um discurso de aparência socialista, termina funcionando como freio para as mudanças que vinham acontecendo nestes anos passados, mudanças que, caso prosseguisse a radicalização, de fato poderiam levar ao socialismo.

O cenário não difere muito do que aconteceu na Nicarágua sandinista quando a revolução foi afastada do poder: um setor –os seguidores de Daniel Ortega– acabou tomando conta do partido e com um discurso ambíguo disfarçado de esquerda, dedicou-se aos seus negócios (o famoso "bolão" em que foram repartidos os bens do Estado antes de entregar a administração para Violeta Barrios de Chamorro, em 1990). "Novos ricos", empresários no mais cabal sentido da palavra –exploradores da mão de obra de seus assalariados, simples assim– que terminaram sendo um freio para um autêntico projeto revolucionário, a partir da oposição naquele caso, novamente no governo agora. A homologação pode ser útil, porque empresário –independente do qualificativo: sandinista, ou peronista como foi na Argentina, ou bolivariano– é, antes de mais nada, explorador, mesmo quando tem viés nacionalista (pode haver empresários "bons"? O que poderia ter de "revolucionária" para o povo mais pobre uma burguesia nacional?).

Hoje, o cenário que se perfila após a derrota no referendo de dezembro passado é o de uma classe de novos empresários bolivarianos que, na sombra do Estado e administrando os recursos do petróleo, não parece estar muito disposta a impulsar um processo revolucionário rumo ao socialismo. Por isso atrasou e complicou a organização popular com vistas ao referendo, o que levou à derrota na disputa eleitoral. Por isso, também, está maquinando com todo seu poder para terminar controlando o nascente PSUV, no qual, antes mesmo de que esteja constituído como força política, já controla o tribunal disciplinário, pronto para fechar a boca de qualquer um que ouse levantar críticas contra este processo de involução que, pelo visto, está sendo vivido agora. Burocracia empresarial –"boliburguesia" como é chamada por lá– que vai tentar manter suas parcelas de poder disputando espaços com a oligarquia tradicional; ou seja, que vai se preparar para ganhar as próximas eleições do final do ano, mas que, ainda vencendo, já tirou de seu foco o aprofundamento da revolução. E que, por outro lado, tem as malas prontas para sair fugindo se a direita tradicional volta com ânimos de revanche. Ou que, provavelmente também, pode terminar convivendo em um clima de harmonia com ela (após um pacto, é claro, sem povo algum).

É impossível dizer com rigorosa certeza qual é o papel que desempenha o presidente Chávez neste cenário. Essa direita endógena tem o presidente seqüestrado? O que está acontecendo com o declarado processo de revisão que estava começando: é a sério e vai haver "limpeza", ou trata-se pura retórica? Qual é a relação estabelecida entre esta burocracia de Estado e de partido e o líder: quem sustenta quem?

Independente de ter respostas para cada uma destas perguntas, a verdade é que este cenário parece ser o que está se configurando hoje. Caso se fortaleça, a revolução teria perdido seu caráter transformador para terminar sendo um processo reformista ou, no melhor dos casos, nacionalista mas sem conteúdo de classe, e muito provavelmente passando a ter características populistas, mas não socialistas.

3) A direita tradicional e "a embaixada ianque" no poder: de novo a Venezuela Saudita?

A Venezuela, durante todo o século passado, foi o país mais cobiçado da América Latina pela geoestratégia de Washington, devido às suas fabulosas reservas petroleiras. Diante do consumo descontrolado de energéticos que a grande economia do norte continua tendo, em seus planos não entra a possibilidade de perder essas reservas do país caribenho. O aparecimento deste governo "incômodo" de Hugo Chávez veio complicar seus planos imperiais: agora o petróleo não é das grandes multinacionais e eles não podem mais levá-lo com absoluta impunidade, como ocorreu durante décadas. Por outro lado, este governo popular é um "mau exemplo" dentro da área. Aí está a iniciativa da ALBA atrapalhando também a lógica imperial de um Tratado de Livre Comércio que a Casa Branca não pôde implementar ao seu gosto, e é Chávez o principal motor dessa proposta contra-hegemônica. Conclusão quase forçosa, então, para a estratégia das classes dominantes dos Estados Unidos: tirar Chávez do meio!

Já tentaram isso muitas vezes até agora, sempre sem sucesso. Mas o que aconteceu no 2 de dezembro revitaliza a estratégia contra-revolucionária. Como já foi dito em reiteradas ocasiões: não ganhou a proposta do NÃO: pelo contrário, venceu o SIM. Independente do aparente jogo de palavras, isso tem um sentido: a direita teve uma vitória que não esperava. E isso abriu um novo cenário, que encoraja a direita e lhe permite reduzir os tempos. Vendo que efetivamente é possível vencer Chávez em uma eleição, agora todas as armas apontam para continuar batendo ali onde a revolução se mostra mais vulnerável. E a primeira vulnerabilidade –talvez imperdoável vista a partir de uma postura revolucionária– é que todo o processo se apóia na figura de uma única pessoa. Isso é uma fraqueza perigosa, porque atingindo essa figura tudo leva a pensar que o processo em sua totalidade vai cair (tão diferente do caso de Cuba, onde a revolução conseguiu estabelecer uma consciência muito mais generalizada e hoje, após a saída de Fidel como condutor, há uma rede de substituição que garante a continuidade do projeto).

A estratégia básica da direita (venezuelana e externa, principalmente a externa, verdadeira condutora desses planos) é ir minando o processo, criando obstáculos, tornando-o ingovernável por meio de infinidade de métodos: desabastecimento, mercado negro, guerra midiática, provocação militar por meio de paramilitarismo, promoção de grupos "democráticos" de oposição que jogam continuamente à desestabilização, campanhas internacionais de desprestígio, etc., etc. Aí estão os casos do Chile nos 1970 e da Nicarágua nos 1980 para exemplificar como esses planos de desgaste terminam dando resultados.

Por que razão conseguiram se impor nesses lugares e não em Cuba? Não é objetivo deste breve escrito entrar nessas considerações, mas não há dúvida de que, sabendo do ainda pouco sólido estado da revolução e da força do ataque, o cenário para o futuro não deixa de preocupar: não é impossível reverter este processo. A direita sabe disso e parece ter elaborado o plano adequado.

A estratégia consiste em ir deixando Chávez sozinho, isolado, tentando a desmobilização, o desencantamento da população, dessa massa chavista que saiu às ruas para defendê-lo até a morte naquele 13 de abril do ano 2002, quando foi o golpe de Estado. Se esse projeto de desmobilização popular, de desencantamento e cansaço for bem-sucedido, a direita teria o caminho livre para continuar ganhando terreno. O tema corrupção desempenha um papel muito grande nisso, e na verdade a diretiva revolucionária não vem tendo um papel irrepreensível na forma como administrou este tema até agora (por exemplo –e sirva isto apenas como exemplo paradigmático–, o que aconteceu com a mala com os 800.000 dólares do caso Antonini?).

A somatória de tantos erros, inconsequências, fraquezas ou como se quiser chamar, potencializada pela manipulação midiática descomunal da direita, assenta as bases para um clima de amargura que abre as portas para a resignação. E daí para reverter a revolução: apenas um passo.

A direita tem pressa em terminar esta experiência; mais ainda do que a oligarquia venezuelana não-petroleira –que na verdade não perdeu nada nestes anos, senão que, pelo contrário, continuou enriquecendo– são especialmente as classes dirigentes norte-americanas que têm os alarmes ligados. Não há dúvida de que também a grande burguesia nacional tem profundo interesse em terminar com isto: a presença da "gentalha" não deixa nunca de causar-lhe espanto, porque sabe que é aí que está seu inimigo de classe e que, cedo ou tarde, esse povo pode acordar. Mas o verdadeiro artífice das campanhas contra-revolucionárias é Washington, por dois motivos: porque não vai deixar que se perca esta reserva petroleira e porque o "mau exemplo" do socialismo do século XXI está resultando incômodo demais.

Já agora, por causa deste governante não alinhado que é Hugo Chávez, junto com a mobilização popular continental que também foi contra, não pôde entrar em vigência o Tratado de Livre Comércio no dia 1° de janeiro de 2005, segundo estava previsto. E graças a este "mau exemplo" de uma Venezuela bolivariana foi tomando forma a iniciativa da ALBA, proposta de integração que denuncia e supera os mecanismos mercantis. Ou seja, que para a lógica imperial há motivos de sobra para intervir.

Nada indica que fará uma intervenção direta com suas tropas. Isso abriria as possibilidades de repetir um Vietnã, ou um Iraque, e o custo político seria alto demais. Por isso a estratégia é buscar o desgaste por outros meios, sem intervenção direta. O Plano Patriota, na Colômbia, é sua base de operações para o caso – base militar, por sinal, que vai além da desestabilização contra a Venezuela e que serve à Casa Branca como encrave para controlar toda a América Latina. A crescente penetração de paramilitares a partir da Colômbia pode ser a nova "Contra" que, igual que na Nicarágua de décadas atrás, sirva para minar o processo, para desgastar Chávez, para buscar a queda "natural" do seu governo.

Se essa estratégia for se consolidando, nem sequer será necessário esperar até as eleições presidenciais de 2012. É provável que antes disso as condições estejam preparadas para promover a remoção de Chávez (via referendo revogatório, golpe de Estado de setores militares descontentes ou, inclusive, com mobilizações anticorrupção ou alguns artifícios que os projetistas sociais do império poderiam desenhar).

E o mais trágico disso poderia ser que o mesmo povo que defendeu Chávez em 2002 ao custo da própria vida, perante toda esta diabólica campanha de desmobilização e descrédito –e terror: para isso estão os paramilitares se posicionando nos bairros!–, neste novo cenário talvez não sairia para defender nada. E não apenas isso: poderia dar-se o caso trágico de que seria visto quase como uma salvação o fato de sair de um "regime corrupto" e "empobrecedor". Os estrategistas do Departamento de Estado, verdadeiros artífices de boa parte da política na América Latina, sabem muito sobre isto. E se isso vier a triunfar –coisa que precisamos impedir absolutamente!– os setores populares não só na Venezuela, mas em todo o nosso continente, mais uma vez ficariam abalados e com as esperanças cortadas.

Conclusão
A nova direita endógena, essa que enriqueceu na sombra do Estado chavista, que nem é nem pretende ser revolucionária, não tem um projeto político como nação. Portanto, é muito difícil que consiga se perpetuar no tempo. Inclusive, é difícil que consiga sobreviver à própria figura de Chávez, que é, afinal de contas, sua única garantia de existência. No suposto caso de que nas próximas eleições de prefeitos e governadores acabe não se saindo tão mal, não tem –fora do que possa ter rapinado, e que em termos econômicos não é algo verdadeiramente significativo como acumulação capitalista– nem a força política para defender um projeto político, nem a força moral perante a população para se apresentar como alternativa. Portanto, esta é uma via morta como proposta para as massas. Poderia, talvez, manter parcelas de poder (o caso do "danielismo" sandinista na Nicarágua), mas totalmente descolada de propostas populares.

Por outro lado, o retorno da direita tradicional ao poder político não faria outra coisa a não ser voltar atrás em todas as conquistas populares conseguidas nestes anos em que a mobilização esteve em alta. Poderia, inclusive, começar uma repressão feroz contra tudo o que cheire a "chavismo". O petróleo ficaria mais uma vez sob controle absoluto das grandes corporações internacionais –hoje em dia administram quotas marginais– por meio da tecnoburocracia venezuelana (que, é bom dizer, nunca desapareceu completamente de PDVSA durante este processo), e se buscaria por todos os meios manter na linha a organização popular conseguida nestes anos. Para isso poderiam ir do clientelismo político e a repotencialização da velha cultura corrupta do partidarismo tradicional, até a repressão aberta (não é à toa que estão entrando e se posicionando os paramilitares colombianos, novo exército de ocupação "de baixa intensidade"). A Venezuela voltaria a ser o "paraíso tropical" de Miss Universos… e de petróleo barato para o Norte, porque até os preços do barril poderiam cair.

Diante destes cenários vemos que a única maneira de poder continuar garantindo o avanço de propostas progressistas que favoreçam as grandes maiorias e avançar em metas socialistas é potencializando as melhoras conseguidas nos primeiros anos do processo bolivariano. E somente com a mobilização popular, desde dentro ou, chegado o caso, desde fora do PSUV, isso será possível. Como se costuma dizer: "somente o povo salva o povo". Mas mobilização popular não é só vestir uma flanela vermelha e participar em uma marcha multitudinária com o líder –isso, inclusive, pode até ser secundário, anedótico–; é participar ativamente nas decisões do dia-a-dia, é envolver-se nos assuntos político-sociais que nos cabem a todas e a todos, é não fechar nunca a boca perante nenhuma injustiça. É, em última instância, manter uma atitude crítica contínua, construtiva e propositiva. E isso é o poder popular. Sem isso, não é possível o socialismo.

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

Fonte: Agência Carta Maior - 05/03/2008 -

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